Enquanto EUA racionam data centers, China liga complexo de IA no deserto com capacidade projetada para 1 milhão de chips e 80% de energia renovável
China inaugura data center de IA no deserto com capacidade projetada para 1 milhão de chips e 80% de energia renovável, enquanto EUA enfrentam crise de capacidade elétrica em data centers.

Enquanto operadores de data centers nos Estados Unidos enfrentam racionamento de energia, a chinesa Envision já liga a maior carga de computação de IA do mundo num deserto chinês, com capacidade projetada para 1 milhão de aceleradores e mais de 80% de energia renovável. O campus Galaxy AI, na Mongólia Interior, começou a operar em agosto de 2026 e usa um sistema de energia que a empresa afirma ser inédito em escala comercial: uma rede de 800V em corrente contínua, com transformadores de estado sólido, projetada para 3 gigawatts de capacidade.
Segundo comunicado da Envision distribuído pela PR Newswire em 2 de novembro, o campus processa cargas de computação real desde essa data. A arquitetura e os números colocam a China num ritmo muito diferente do dos EUA para resolver o gargalo de energia que já ameaça frear a expansão da IA.
Por que o modelo é diferente
Data centers de IA tradicionais recebem energia em corrente alternada e passam por várias conversões até chegar aos racks de GPU, perdendo eficiência em cada etapa. O sistema da Envision converte 10 kV de corrente alternada da rede diretamente para 800V em corrente contínua, usando transformadores de estado sólido (SST) que a empresa apresentou na feira Smarter E Europe 2026 com 98,5% de eficiência de conversão, em unidades de 2,5 megawatts.
Na prática, isso significa menos cabeamento, menos cobre e, segundo a Envision, maior eficiência de watt por bit processado — métrica que vem ganhando peso conforme os data centers de IA passam a consumir energia na escala de usinas inteiras.
O projeto está ligado à iniciativa "Mission Gobi" da Envision, que mira 5 gigawatts de data centers verdes em regiões desérticas ao redor do mundo até 2030, aproveitando a radiação solar e os ventos constantes de áreas como o deserto de Gobi para gerar energia renovável perto de onde ela é consumida.
O contraste com os Estados Unidos
Enquanto a China liga essa arquitetura em escala comercial, operadores de data centers de IA nos Estados Unidos enfrentam o problema inverso: falta de capacidade elétrica disponível na rede. Segundo reportagem do Tom's Hardware, a Monitoring Analytics — monitora independente do mercado da PJM, a maior área de distribuição de energia do país, que cobre parte do leste e do meio-oeste americano — classificou como "não reversível" um salto de 76% no preço de eletricidade da região entre o primeiro trimestre de 2025 e o mesmo período de 2026, puxado pela demanda de data centers de IA. No plano federal, porém, a Comissão Federal Reguladora de Energia (FERC) rejeitou partes de propostas da própria PJM que tentavam obrigar data centers a arcar com capacidade e infraestrutura dedicadas; quem de fato passou a exigir isso foi o regulador estadual da Virgínia (State Corporation Commission), somado a um compromisso voluntário — sem força de lei federal — assumido por empresas de tecnologia na Casa Branca em março de 2026. Mais de 300 cidades americanas chegaram a impor moratórias à instalação de novos data centers por falta de capacidade elétrica, segundo a mesma reportagem.
Essa diferença de ritmo regulatório é um dos pontos centrais da disputa entre EUA e China por infraestrutura de IA: não basta ter os chips mais avançados, é preciso também resolver o gargalo de energia rápido o suficiente para colocá-los em operação.
O que dizem os estudos
Envision Energy (comunicado via PR Newswire, 2 de novembro de 2026). A empresa afirma ter feito a primeira implantação comercial do mundo de um sistema integrado de 800V DC com transformadores de estado sólido em um data center de IA de grande escala, com o campus Galaxy AI operando desde agosto de 2026, meta de 3GW e suporte a até 1 milhão de aceleradores de IA, com mais de 80% de energia renovável. É um relatório da própria empresa fabricante e operadora do sistema, sobre uma única instalação, sem auditoria técnica independente divulgada — os números de capacidade final (3GW, 1 milhão de chips) são metas de projeto, não totalmente operacionais, e a classificação de "primeiro do mundo" não foi verificada por terceiros.
IEA — Energy and AI (World Energy Outlook Special Report, 2025). A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo de eletricidade por data centers dedicados a IA deve mais que quadruplicar, de 118 TWh em 2024 para uma faixa de 239 a 295 TWh em 2030, com a demanda total de data centers chegando a 945 TWh em 2030 — Estados Unidos e China respondendo juntos por quase 80% desse aumento global e, só dentro dos EUA, data centers já representando quase metade do crescimento da própria demanda elétrica americana no período. É modelagem de cenário-base feita com dados de operadores, governos e empresas de energia, sujeita a revisão conforme o ritmo real de construção de data centers e a eficiência dos chips.
O que isso não prova
Os números de capacidade, eficiência e participação renovável do campus chinês vêm exclusivamente da Envision, sem verificação técnica independente publicada até agora. Viabilizar 80% de energia renovável em escala de gigawatts no deserto depende de armazenamento em bateria em um volume que ainda não foi testado nessa escala em nenhum outro projeto conhecido. E a velocidade com que a China consegue licenciar e energizar um projeto desse tamanho também reflete menos resistência local e menos barreiras regulatórias do que nos EUA — uma vantagem política, não só tecnológica.
O que acompanhar
Para quem pesquisa a corrida de infraestrutura entre EUA e China, o campus Galaxy AI é um teste real de duas apostas ao mesmo tempo: se a arquitetura 800V DC se replica em outros projetos da Mission Gobi até 2030, e se a meta de 80% renovável se sustenta conforme o campus se aproxima dos 3GW de capacidade plena. Do lado americano, o desfecho das disputas na FERC sobre quem paga pela infraestrutura de energia dos data centers de IA é o indicador mais direto de quanto esse gargalo vai continuar freando novos projetos.
Fontes
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