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A trégua das terras raras que vale US$ 6,5 trilhões está de pé, mas só no papel de um lado

A trégua das terras raras que protege US$ 6,5 trilhões em manufatura global está de pé só no papel americano. A China não confirmou por escrito. O que muda em 8 dias?

Por Redação Ai Lucro · · 5 min de leitura
Planta industrial de refino de minerais com esteiras transportando blocos de minério e ímãs industriais
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Em 10 de novembro, dentro de oito dias, expira oficialmente a suspensão chinesa dos controles mais agressivos sobre exportação de terras raras. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou a extensão até 10 de janeiro de 2027. O problema: a China não publicou o decreto correspondente. Para quem acompanha chips e defesa, essa divergência entre datas é o sinal mais imediato—e o menos coberto.

A tese da Redação Ai Lucro é simples: existem duas datas em jogo, não uma. A data política, defendida por Washington, é 10 de janeiro de 2027. A data jurídica, a que consta no instrumento regulatório chinês original, continua sendo 10 de novembro de 2026. Até Pequim emitir um decreto equivalente ao anúncio de Bessent, o mercado está operando sobre a palavra de um só lado.

Terras raras: por que os próximos 8 dias importam

Terras raras são elementos químicos (lantanídeos e escândio) essenciais em ímãs permanentes para motores elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa, eletrônicos de telecomunicações e semicondutores avançados. A China controla aproximadamente 90% da capacidade de processamento mundial e 99% da separação dos elementos mais valiosos (terras raras pesadas). Uma reimposição total das regras suspensas poderia colocar em risco US$ 6,5 trilhões em produção industrial fora da China, segundo a Agência Internacional de Energia, com o setor automotivo respondendo por mais de US$ 3 trilhões desse total.

A origem da trégua

Em 7 de novembro de 2025, China e Estados Unidos fecharam um acordo para suspender, por exatamente um ano, a parte mais agressiva do regime chinês de controle de exportação de terras raras anunciado em outubro daquele ano, segundo o Startup Fortune. As regras suspensas incluíam uma lista ampliada de elementos controlados e, principalmente, um limiar de 0,1% de valor de origem chinesa: qualquer produto estrangeiro com esse traço mínimo de terras raras chinesas passaria a exigir licença de Pequim, segundo o Technology.org. Na prática, isso dava à China poder de veto extraterritorial sobre fabricantes de chips e contratados de defesa fora de seu território.

Essa suspensão de um ano vence em 10 de novembro de 2026. Em uma reportagem publicada em 6 de outubro, cinco semanas antes do vencimento, o Startup Fortune relatou que Pequim "não deu a fabricantes de chips e montadoras nenhum sinal sobre se vai renovar, restringir ou deixar caducar" a suspensão.

O que Washington diz, e o que falta confirmar

Em 23 de setembro de 2026, durante visita de Estado do presidente chinês Xi Jinping a Washington, Bessent anunciou que a trégua comercial mais ampla com a China, incluindo a suspensão das terras raras, havia sido estendida até 10 de janeiro de 2027. O anúncio veio depois de um encontro anterior entre Donald Trump e Xi Jinping em Busan, na Coreia do Sul, em 30 de outubro de 2025, onde a trégua original foi negociada.

O problema é que o anúncio de Bessent é uma declaração do lado americano. A China não publicou um instrumento legal correspondente que substitua o prazo de 10 de novembro gravado em sua própria regulamentação. Some-se a isso que Pequim segue atrasada em US$ 17 bilhões de compras agrícolas prometidas aos EUA como parte do mesmo pacote, e os envios de terras raras não voltaram aos volumes acordados, segundo o próprio Bessent. Dois sinais de que o cumprimento chinês do acordo mais amplo está incompleto, mesmo com a extensão anunciada pelos americanos.

O que dizem os estudos

Agência Internacional de Energia (IEA), via International Finance, 2026 — análise de cadeias de suprimento globais dependentes do processamento chinês de terras raras: uma reimposição total das regras suspensas poderia colocar em risco até US$ 6,5 trilhões em produção industrial fora da China, com o setor automotivo (motores de tração de veículos elétricos e geradores eólicos com ímãs de neodímio-ferro-boro dopados com disprósio e térbio) respondendo por mais de US$ 3 trilhões desse total. É um relatório de dados oficiais de uma agência intergovernamental, mas modela um cenário de pior caso, reimposição total, e não uma previsão de que isso vá ocorrer.

Discovery Alert, análise de mercado de mineração, 2025-2026 — compilação de dados de produção e capacidade de separação por país: a China responde por cerca de 69% a 70% da mineração global de terras raras, mas controla aproximadamente 90% da capacidade de processamento mundial e 99% da separação dos elementos de terras raras pesados. É relatório de mercado, não dado alfandegário oficial, e os números variam ligeiramente entre fontes. Mas o padrão é consistente: a alavancagem chinesa está no refino, não na extração. Mesmo que outros países minerem mais terras raras, quase ninguém fora da China consegue separá-las em escala industrial.

O contra-argumento

É possível argumentar que a divergência entre as duas datas é só burocracia, e que a extensão até janeiro de 2027 já está, na prática, em vigor. A reunião de Xi com Trump teve peso político suficiente para que o mercado tratasse o acordo como fechado, e uma ruptura em 10 de novembro, oito dias após este texto, derrubaria a credibilidade do próprio Bessent diante de chipmakers e montadoras que já ajustaram seus planejamentos de estoque com base no prazo de janeiro.

O contraponto é que esse tipo de promessa política já falhou em se materializar em texto antes, e a China tem histórico de atrasar cumprimentos de acordos comerciais sem romper publicamente com eles, como mostram os próprios US$ 17 bilhões em compras agrícolas pendentes. Tratar o anúncio de setembro como garantia, sem o decreto chinês equivalente, é apostar que Pequim vai confirmar depois o que Washington já anunciou antes.

O que observar

Quem acompanha chips, defesa e manufatura de veículos elétricos tem um calendário curto pela frente. Vale observar, nos próximos dias: se o Ministério do Comércio chinês publica instrumento legal estendendo a suspensão até janeiro de 2027; se há qualquer sinal de retomada nos envios de terras raras aos níveis pré-acordo; e se o cumprimento das compras agrícolas de US$ 17 bilhões avança, o que tenderia a indicar boa-fé chinesa também na frente de terras raras. A ausência de decreto chinês até 10 de novembro, mesmo com o anúncio americano em vigor, seria o sinal mais concreto de que a trégua segue sendo uma garantia de um só lado.

Fontes

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