Pesquisadores contestam que a IA tenha passado no teste de Turing; 36 de 37 acharam a máquina
Estudo na Philosophy of Science refez o teste de Turing como Turing descreveu, sem limite de cinco minutos. 36 de 37 participantes identificaram o GPT-4-Turbo.

Três pesquisadores argumentam, na revista Philosophy of Science, que a maioria dos experimentos chamados de "teste de Turing" não segue o desenho original de Alan Turing e, por isso, não mostra que uma IA passou nele. Para provar o ponto, refizeram o teste do jeito descrito por Turing. O resultado: 36 de 37 participantes identificaram corretamente o GPT-4-Turbo como a máquina.
O argumento
O artigo é de Diane Proudfoot, Sharon Temtsin e Christoph Bartneck, pesquisadores da Universidade de Canterbury (Nova Zelândia). Eles revisaram escritos de Turing de 1948 a 1952, além de comentários históricos da época.
A conclusão é que elementos populares do teste, como a conversa de cinco minutos e a regra de que a máquina "passa" se enganar 30% dos juízes, não foram critérios de aprovação definidos por Turing. O desenho dele seria um jogo de imitação com três participantes: um interrogador, um humano e uma máquina, com perguntas abertas e sem tempo fixo.
O experimento
Os autores dizem que o trabalho é a primeira implementação experimental desse desenho conceitual. Os participantes conversaram livremente com um humano e com o GPT-4-Turbo, da OpenAI, até se sentirem seguros para dizer qual deles era a máquina.
Os números
- Participaram 37 pessoas.
- 36 identificaram corretamente o GPT-4-Turbo, o que dá 97%.
- 33 participantes (89%) levaram mais de cinco minutos para decidir.
- As conversas duraram em média 14 minutos, e a mais longa chegou a 46.
Os autores sugerem que testes curtos dão pouco tempo para o interrogador verificar se a IA entende de fato um assunto. Os autores concluem que nenhum grande modelo de linguagem demonstrou, até agora, passar num teste fiel ao formato original.
O que o estudo não prova
A amostra é pequena e o experimento usou um único modelo, o GPT-4-Turbo, já superado por versões mais novas. Os próprios pesquisadores afirmam que os resultados não mostram que todos os modelos atuais ou futuros falhariam. Também não é uma contestação a pesquisas anteriores que usaram conversas curtas; a crítica é sobre o que elas podem afirmar. Detalhes como critérios de julgamento e perfil dos participantes dependem da leitura do artigo completo, que não foi consultado na íntegra para esta reportagem.
Por que a discussão importa
Manchetes sobre IA que "passou no teste de Turing" costumam se apoiar em conversas de poucos minutos. O estudo mostra que o resultado depende das regras escolhidas, e que mudar a duração e a liberdade das perguntas muda o veredito. Para o leitor, a lição é prática: antes de aceitar que uma máquina "passou" em um teste, vale perguntar qual foi o formato, quanto tempo durou e quantos juízes participaram.
O debate também lembra que o teste de Turing nunca foi uma medida oficial de inteligência, e sim uma proposta filosófica de 1950. Usá-lo como régua de marketing ou de manchete tende a render conclusões frágeis.
O que vem depois
Uma extensão natural seria repetir o desenho original com modelos mais recentes e com mais participantes. Até lá, o que há de sólido é limitado: sob as condições de Turing, um modelo de 2023 foi descoberto por quase todos os juízes.
Fontes
Leia também

Claude cria circuitos quânticos mais eficientes em estudo da Anthropic

Anthropic diz que Claude identificou origem de parâmetros criptográficos que intrigavam pesquisadores

IA no doutorado aparece ligada à carreira fora da academia em estudo
