Sábado, 17 de outubro de 2026Inteligência artificial e tecnologia, todo dia
Ciência e Pesquisa

Simons Foundation cria fundo de US$ 15 milhões para avaliar matemática feita com IA

Fundação vai financiar workshops e projetos para a comunidade matemática avaliar resultados gerados por IA; OpenAI entra com US$ 5 milhões após críticas de pesquisadores.

Por Redação Ai Lucro · · 4 min de leitura
Quadro-negro universitário coberto de equações manuscritas em giz branco, com cadernos de cálculo e um laptop fechado sobre a mesa
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A Simons Foundation anunciou em 15 de outubro de 2026 um fundo de US$ 15 milhões, entre recursos e financiamento, em parceria com a OpenAI e a Anthropic, para que a comunidade matemática avalie resultados produzidos com apoio de inteligência artificial. O dinheiro vai bancar workshops e projetos que examinem demonstrações recentes assistidas por IA e definam padrões coletivos de uso das ferramentas.

O anúncio chega nove dias depois de a OpenAI publicar um volume inédito de matemática gerada por máquina, em meio à reação pública de parte dos pesquisadores da área.

O que a Simons Foundation vai financiar com os US$ 15 milhões

A fundação diz que vai administrar e distribuir os recursos, inclusive por meio de uma chamada aberta de propostas. São quatro eixos: avaliar resultados recentes assistidos por IA, treinar pesquisadores para usar as novas ferramentas, criar fóruns para a comunidade trocar posições sobre a adoção dessas tecnologias e estabelecer padrões coletivos de uso responsável.

A OpenAI entra com US$ 5 milhões, destinados a workshops, conferências e programas especiais. O restante vem da própria fundação e da Anthropic. As duas empresas também vão fornecer ferramentas de IA e recursos computacionais a pesquisadores apoiados pela Simons Foundation, com alcance que, segundo a fundação, passa da matemática e inclui outras áreas de ciência básica. Prazos e critérios de inscrição não foram detalhados no anúncio.

"Conforme a inteligência artificial reformula rapidamente o cenário de pesquisa, queremos ajudar a comunidade matemática a se unir e traçar o melhor caminho a seguir", disse David Spergel, presidente da Simons Foundation. Em outro trecho do comunicado, a fundação sustenta que a comunidade, e não uma única empresa ou instituição, deveria conduzir a discussão sobre como essas ferramentas são avaliadas, adotadas e usadas.

A fundação lembra que foi financiadora inicial do desenvolvimento do Lean, assistente de provas que, segundo o comunicado, mudou a forma de trabalho dos matemáticos e tornou possíveis as demonstrações assistidas por IA.

A crise que antecedeu o anúncio

O fundo nasce depois de semanas de atrito entre a OpenAI e matemáticos. Em setembro de 2026, conforme a Euronews, a empresa afirmou que um de seus modelos havia chegado a um resultado relevante sobre as equações de Navier-Stokes, que descrevem o comportamento de fluidos e cujo problema central de existência e suavidade resiste a matemáticos há décadas.

Em 6 de outubro, a OpenAI divulgou que o mesmo modelo havia produzido mais de 700 manuscritos acadêmicos e cerca de 400 outros resultados em matemática e ciência da computação.

A reação não foi de celebração. A Association for Human Mathematics (AHM) acusou a OpenAI de demonstrar "total desrespeito às normas da pesquisa científica" e afirmou que os matemáticos não pediram que esse trabalho fosse feito. Dois matemáticos dizem ter chegado perto de um resultado semelhante e questionam se o trabalho da OpenAI se apoiou no deles — um deles é Levent Alpöge, que, segundo a Euronews, trabalha na Anthropic e colaborava em caráter pessoal. A OpenAI nega ter visto esses trabalhos.

A empresa declarou que o objetivo da doação é ajudar matemáticos a examinar, entender e construir sobre resultados produzidos por IA.

O que muda para pesquisadores no Brasil

A pergunta prática que o fundo tenta responder é quem valida uma demonstração que nenhum humano escreveu. Com centenas de manuscritos despejados de uma vez, revisores e orientadores passam a precisar de método, e não só de opinião, para decidir se aceitam um resultado assistido por IA em um artigo, numa dissertação ou numa submissão de congresso.

Hoje essa decisão é tomada sem critério internacional consolidado para consultar — é exatamente a lacuna que a iniciativa diz querer fechar. Se a comunidade matemática global chegar a padrões de verificação, periódicos e bancas brasileiras ganham uma referência pronta em vez de improvisar caso a caso.

O que esperar

Os próximos sinais concretos serão a abertura da chamada de propostas e os primeiros workshops financiados, que devem indicar se o esforço vai produzir critérios de verificação aplicáveis ou ficar no debate. Também fica em aberto como a comunidade vai tratar o acervo já publicado pela OpenAI: parte do dinheiro serve, na prática, para conferir material que a própria doadora colocou no mundo, o que alimenta a dúvida sobre independência levantada por críticos da empresa.

Fontes

simons foundationopenaianthropicmatemáticaia na ciência

Leia também