A Nvidia quer US$ 20 bilhões com um chip que nem é GPU — e uma startup de US$ 15,75 bilhões já apostou nele
A Modal, de US$ 15,75 bilhões, vai incorporar o Vera, o CPU de 88 núcleos da Nvidia. A fabricante projeta US$ 20 bi em vendas com o chip para agentes de IA.

A Modal, startup de computação em nuvem avaliada em US$ 15,75 bilhões, vai incorporar o Vera à sua infraestrutura. É o novo CPU de 88 núcleos da Nvidia — um chip que não treina modelos, mas roda agentes de IA em produção. A Nvidia projeta faturar pelo menos US$ 20 bilhões neste ano fiscal com a aposta em um mercado de cerca de US$ 200 bilhões hoje dominado por Intel e AMD.
Por que uma CPU, se a corrida de IA é sobre GPU
Treinar modelos de linguagem é trabalho de GPU: cálculo matricial massivo e paralelo. Mas rodar um agente de IA em produção é outra tarefa. Envolve uma sequência longa de etapas — ler um pedido, chamar uma ferramenta, esperar uma resposta, decidir o próximo passo — intercalada com picos de atividade paralela, como vários contêineres de software processando chamadas ao mesmo tempo.
Esse padrão de trabalho esbarra num gargalo que a GPU não resolve sozinha: largura de banda de memória e eficiência de CPU em servidores lotados de processos simultâneos. É aí que a Nvidia está posicionando o Vera.
O que dizem os estudos
A evidência sobre o ganho de desempenho em cargas de agentes de IA, especificamente, vem de um único lugar até agora: a própria Modal, cliente que fechou negócio com a Nvidia.
- Relatório de empresa (Modal, 2026): em 50 tarefas de codificação, o Vera teve desempenho próximo ao de chips Intel e AMD em execução isolada, mas chegou a até 2 vezes mais throughput quando o servidor rodava múltiplos contêineres simultâneos — efeito atribuído à maior largura de banda de memória. Amostra: 50 tarefas de codificação, comparação direta contra chips Intel e AMD existentes. Limitação crítica: benchmark proprietário, não auditado por terceiros, e não incluiu os próximos modelos de Intel e AMD ainda não lançados.
Existe, sim, um benchmark independente do Vera — publicado pela Phoronix em maio de 2026, mostrando o chip superando o melhor Epyc da AMD em cerca de 10% e o Xeon topo de linha da Intel em mais de 50%, em média geométrica de testes gerais de CPU. Mas esse teste rodou sob lista de workloads restrita pela própria Nvidia, com monitoramento de energia bloqueado, e não avaliou o cenário específico de agentes de IA sob carga concorrente que sustenta a aposta da Modal. Ou seja: não há, até agora, estudo acadêmico revisado por pares nem relatório independente confirmando o ganho de desempenho nesse tipo de carga de trabalho.
O contraponto
O CEO da Modal, Erik Bernhardsson, foi direto ao afastar qualquer leitura de que Intel e AMD ficaram para trás: a empresa vai manter uma frota mista e testar os próximos chips dessas duas fabricantes assim que forem lançados, usando o hardware que performar melhor em cada caso. A vantagem do Vera medida hoje pode encolher diante da próxima geração de concorrentes — e o teste foi divulgado pela mesma empresa que tem interesse comercial em validar a compra.
O que isso sinaliza
Para quem acompanha a infraestrutura de IA além da narrativa de GPU, o movimento importa por dois motivos. Primeiro, mostra a Nvidia tentando capturar uma fatia de um mercado de US$ 200 bilhões onde ela historicamente não competia, numa aposta de que agentes de IA — e não só modelos generativos — vão definir a próxima onda de demanda por hardware. Segundo, reforça que o gargalo da IA está migrando: depois de anos de disputa por GPU e energia para data centers, a eficiência de CPU em cargas de trabalho fragmentadas e paralelas entra no radar como variável de custo e desempenho.
O que acompanhar
Vale observar três sinais nos próximos meses: se outras clouds de IA além da Modal anunciam adoção do Vera, se Intel e AMD lançam respostas específicas para cargas de agentes de IA, e se surgem benchmarks independentes comparando os três fabricantes especificamente nesse tipo de carga concorrente — hoje o único número público sobre desempenho em agentes de IA vem de quem já comprou o chip.
Fontes
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