300 cidades dos EUA proíbem data centers de IA, mas apenas 7,6% da capacidade foi realmente atrasada
SemiAnalysis mapeou 300+ moratórias contra data centers de IA. O achado: apenas 7,6% da capacidade foi atrasada. Descubra por quê.

Em 13 de outubro, a Câmara Municipal de Milwaukee votou 13 a 0 para proibir, por um ano, a construção de novos data centers na cidade. A disputa que originou a votação começou com um Walmart abandonado: uma incorporadora queria transformar parte do terreno em um centro de computação de 19 mil pés quadrados, e a reação popular foi forte o suficiente para a empresa retirar o projeto antes mesmo da votação, segundo a Urban Milwaukee.
Episódios como esse se multiplicaram pelos Estados Unidos em 2026. A SemiAnalysis, consultoria especializada em semicondutores e infraestrutura de IA, mapeou mais de 300 moratórias locais contra data centers usando imagens de satélite e análise parcela a parcela de mais de 6 mil instalações. A pergunta que interessa a quem acompanha a corrida por capacidade computacional é se essa onda de rejeição é só ruído político municipal ou o início de um freio estrutural na expansão da IA nos EUA. Os próprios números do mapeamento sugerem uma resposta incômoda para os dois lados do debate.
De um Walmart abandonado a tema de eleição estadual
Em Wisconsin, data centers deixaram de ser assunto técnico de zoneamento e se tornaram pauta de campanha. Segundo reportagem da WAMC, o democrata David Crowley e o republicano Tom Tiffany trocaram acusações na corrida ao governo do estado sobre quem seria mais complacente com a indústria. Tiffany declarou, em debate, que não vai "pagar esses subsídios" às empresas de data center. A desconfiança tem raiz específica: a Foxconn prometeu mais de 10 mil empregos em Wisconsin durante o primeiro mandato de Trump, recebeu incentivos estaduais pesados e depois encolheu drasticamente a operação, deixando uma marca de ceticismo que hoje recai sobre os data centers de IA.
Esse padrão não é exclusivo de Wisconsin. Segundo a Route Fifty, a National League of Cities identificou pelo menos 76 governos locais nos EUA que tentaram aprovar moratórias ou proibições permanentes contra data centers, com a maior parte delas aprovada. Só a Geórgia concentra cerca de 40 jurisdições locais com algum tipo de restrição, segundo o Energy Policy and Innovation Center da Georgia Tech, seguida por Illinois e Carolina do Norte, cada uma com pelo menos dez municípios na lista. A maioria das medidas é temporária: apenas três jurisdições no país — Marshall County (Indiana), Monterey Park (Califórnia) e St. Charles (Missouri) — adotaram proibições permanentes.
O mapeamento que contraria a narrativa de "freio nacional"
É aqui que o relatório da SemiAnalysis adiciona uma camada que a cobertura política, por si só, não mostra. A consultoria cruzou os limites jurisdicionais de cada moratória com a localização georreferenciada de data centers em operação, construção ou planejamento, validando caso a caso com registros de propriedade, licenças, dados de consumo de energia e pedidos de acesso à informação (FOIA).
O resultado: cerca de 20 GW de capacidade planejada de data center está dentro de áreas hoje cobertas por alguma moratória. Mas, segundo a SemiAnalysis, apenas 1.525 MW desse total — 7,6% da capacidade exposta — sofreu atraso real e comprovável, concentrado em três projetos: um campus da AWS em Ohio, um campus de um incorporador de terrenos energizados na Pensilvânia e um site no Colorado. Somando moratórias locais à ordem executiva do governo de Nova York, que também restringiu novos projetos e responde por cerca de 800 MW adicionais, o atraso genuíno estimado pela consultoria sobe para cerca de 2,3 GW em todo o país — uma fração pequena frente à trajetória de expansão do setor.
A projeção da SemiAnalysis para a capacidade de data center de IA nos EUA segue em alta: mais de 38 GW de capacidade nova devem ser entregues em 2027, mais que o dobro de 2026, com 22 GW já em construção vertical e outros 16 GW financiados e em preparação de terreno.
O que dizem os estudos
SemiAnalysis (2026, relatório de consultoria privada) — mapeamento geoespacial de mais de 300 moratórias locais cruzado com a localização de mais de 6 mil data centers identificados por satélite, validado parcela a parcela com registros de propriedade, licenças e dados de energia. Achado central: de ~20 GW de capacidade dentro de áreas com moratória, só 1.525 MW (7,6%) foi efetivamente atrasado; projeção de +38 GW entregues nos EUA em 2027. Limitação: metodologia proprietária, sem auditoria externa independente, e a SemiAnalysis vende relatórios e dados para a própria indústria de chips e nuvem — o que pode inclinar a leitura para minimizar o impacto das restrições locais.
National League of Cities e Energy Policy and Innovation Center da Georgia Tech (2026, levantamentos setoriais) — contagem de ordenanças e atos legislativos municipais, estaduais e de condado ao longo de 2026. A NLC chegou a pelo menos 76 governos locais; a Georgia Tech, isoladamente, contou cerca de 40 só na Geórgia. Limitação: os números variam bastante entre rastreadores porque não há padronização sobre o que conta como "atividade de moratória" — proposta, aprovação temporária e proibição permanente entram juntas na mesma contagem em alguns levantamentos.
Nenhum dos dois é artigo revisado por pares; são relatório de empresa e levantamentos setoriais, o que pesa a favor de tratar os números como estimativas de ordem de grandeza, não como medição definitiva.
Por que as moratórias locais não conseguem congelar a expansão
A conclusão mais citada da SemiAnalysis é também sua principal ressalva: "contar moratórias é um proxy ruim para a capacidade realmente afetada". A maioria das restrições locais congela apenas pedidos novos, sem revogar aprovações já concedidas — por isso o boom de construção segue acelerando mesmo com a onda de oposição comunitária. Em outras palavras: a revolta é real e crescente, mas, até aqui, ela ataca o fluxo de novos projetos, não o estoque já aprovado e em obras.
O que isso significa para quem projeta cenários de energia e IA
A tese que os dados sustentam hoje é de atrito político crescente sem freio estrutural: a oposição local virou matéria de campanha eleitoral em estados como Wisconsin, mas ainda não moveu a agulha da capacidade total represada. O que inverteria esse quadro seria um salto nas proibições permanentes — hoje só três no país —, ou estados grandes como Geórgia e Illinois endurecendo de moratória temporária para proibição definitiva, ou ainda novas ordens executivas estaduais nos moldes da de Nova York, que afetam projetos já aprovados.
Checklist do pesquisador
- Acompanhar se alguma das moratórias temporárias em Geórgia, Illinois ou Carolina do Norte vira proibição permanente nos próximos meses.
- Monitorar o resultado das eleições de meio de mandato em Wisconsin, onde data center já é tema de debate de governador.
- Checar atualizações do rastreador da SemiAnalysis e da National League of Cities para ver se o número de MW efetivamente atrasado cresce além dos 1.525 MW atuais.
- Observar se outros estados replicam a ordem executiva de Nova York, que atinge projetos já aprovados — esse seria o sinal de que o atrito deixou de ser só sobre projetos novos.
Fontes
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