Projeto de data center espacial do Google já orbita — apesar de poder custar até 100 vezes mais
O Google sabe que um data center no espaço custaria até 100x mais que na Terra. Mesmo assim, testa TPUs em órbita para o Projeto Suncatcher.

Amanda Peterson Corio, chefa de energia de data centers do Google, admite em público que o projeto de computação no espaço da própria empresa pode custar até 100 vezes mais que um data center na Terra. Mesmo assim, o Google já lançou chips TPU em órbita para testar a ideia.
A frase da executiva resume a tensão por trás do Projeto Suncatcher: a empresa pesquisa data centers orbitais como aposta de longo prazo, mas a própria chefa de energia reconhece que a conta, hoje, não fecha. Segundo o Free Press Journal, Corio afirmou que "vamos explorar todas as opções terrestres antes de ir para o extraterrestre".
O que é o Projeto Suncatcher
O Suncatcher é a iniciativa do Google para testar se faz sentido rodar cargas de trabalho de inteligência artificial em satélites equipados com chips TPU, alimentados por painéis solares em órbita. Segundo o blog oficial da empresa, um satélite-protótipo do tamanho de uma geladeira atingiu órbita heliossíncrona em 1º de outubro de 2026, para testar como os TPUs reagem à radiação, a variações térmicas extremas e ao estresse físico do lançamento.
O próximo passo é uma missão em parceria com a empresa de imagens de satélite Planet: lançar dois satélites-protótipo até o início de 2027 para testar o hardware em órbita real, antes de qualquer decisão sobre escala.
Por que o espaço parece atraente
A lógica por trás da ideia é energética: em órbita, painéis solares podem captar luz solar quase sem interrupção — sem noite, sem nuvens e sem atmosfera atenuando a radiação. É exatamente o tipo de energia constante e abundante que falta aos data centers de IA na Terra, hoje travados por filas de conexão à rede elétrica e disputa por capacidade de geração.
O que dizem os estudos
Google Research / Google DeepMind (2026) — O paper técnico do Projeto Suncatcher estima que painéis solares em órbita podem ser até 8 vezes mais produtivos que na Terra. Porém, a equivalência de custo por unidade de energia só se aproxima se o custo de lançamento cair para cerca de US$ 200 por quilo — projeção para meados dos anos 2030. Limitação importante: é um relatório produzido pela própria empresa interessada no projeto, baseado em projeções de custo futuro, sem dados de operação comercial real em órbita — não é estudo independente nem revisado por pares.
Orbital Radar, dados de mercado (2026) — Lançar carga para órbita baixa custa aproximadamente US$ 3.000 por quilo hoje em um Falcon 9 reutilizável, depois de uma queda de mais de 90% em duas décadas (os ônibus espaciais da NASA chegavam a US$ 54.000/kg). O Starship, da SpaceX, tem como meta de design ficar na faixa de US$ 100 a 200/kg, mas esse número ainda não foi alcançado em operação comercial — é uma meta, não um preço disponível hoje.
A aritmética do Google, portanto, exige uma queda de aproximadamente 93% no custo de lançamento — de US$ 3.000/kg para US$ 200/kg — para que data centers orbitais façam sentido econômico.
O contraponto, dito pela própria executiva do Google
A mesma Amanda Peterson Corio que divulgou a projeção de custo 100 vezes maior é quem comanda a energia dos data centers terrestres do Google. Ela foi clara ao dizer que a prioridade da empresa é esgotar as opções na Terra antes de apostar no espaço. Na prática, isso trata o Suncatcher como pesquisa de horizonte longo, não como resposta à crise de energia que já aperta os data centers de IA.
O que acompanhar
Para quem pesquisa a crise de energia da IA, três sinais valem monitorar nos próximos meses:
- TPUs em órbita — resultados dos testes de radiação nos chips já lançados
- Satélites-protótipo Planet — lançamento previsto para início de 2027
- Custo real do Starship — qualquer atualização de preço comercial (não meta de design) para cargas para órbita
Enquanto o custo por quilo não se aproximar dos US$ 200 projetados pelo Google, a computação espacial continua sendo um experimento de longo prazo — não uma alternativa aos data centers terrestres.
Fontes
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