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Gás dispara 86% enquanto solar recua — a inversão não prevista na fila de energia dos EUA que abastecerá IA

Gás natural salta 86% na fila de interconexão dos EUA enquanto solar e armazenamento recuam. Dados do LBNL mostram que demanda de IA por eletricidade firme está sendo atendida com combustível fóssil.

Por Redação Ai Lucro · · 5 min de leitura
Torres de transmissão elétrica ao entardecer com usina a gás natural iluminada ao fundo e painéis solares apagados em primeiro plano
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

No fim de 2025, a fila de projetos esperando para se conectar à rede elétrica dos Estados Unidos somava 2.061 gigawatts (GW) — 50% maior que toda a capacidade instalada no país (aproximadamente 1.374 GW), segundo o relatório "Queued Up: 2026 Edition", do Lawrence Berkeley National Laboratory (LBNL), ligado ao Departamento de Energia dos EUA. Para quem acompanha a corrida de infraestrutura da IA, porém, o número que importa está dentro dessa fila.

Os pedidos de usina a gás natural cresceram 86% em um único ano, atingindo 253 GW. No mesmo período, solar caiu 19%, armazenamento caiu 16% e eólica caiu 19%. O discurso que domina desde 2024 promete que a expansão de data centers IA será abastecida por energia limpa. Os dados oficiais mostram o combustível fóssil ganhando terreno justamente agora — e o sinal é claro: demanda de energia firme, despachável 24 horas por dia (exatamente o que data centers com GPUs precisam), está sendo direcionada ao gás.

A fila que não anda

O relatório do LBNL, divulgado em junho de 2026 com dados até o fim de 2025, mapeou cerca de 8.200 projetos ativos em sete operadores de rede e cerca de 50 concessionárias dos EUA. A fila total de geração e armazenamento soma 1.312 GW de geração mais 749 GW de armazenamento — uma queda de 10% frente aos 2.290 GW de 2024, puxada principalmente pela retirada de projetos renováveis que não avançaram.

O gargalo é físico, não só regulatório: apenas 53 GW entraram de fato em operação em 2025, um throughput de cerca de 2% de tudo que está na fila. No mesmo ano, mais de 750 GW foram retirados do pipeline — projetos cancelados, inviabilizados ou que desistiram do processo. O tempo mediano entre pedido e operação comercial subiu para 61 meses em 2025, contra 36 meses em 2015 e 22 meses em 2008. A fila não está só maior, está mais lenta.

Gás sobe, renovável recua

A inversão de tendência é o que interessa a quem acompanha a corrida de infraestrutura da IA. Até poucos anos atrás, a fila de interconexão era dominada por solar e armazenamento, baratos e rápidos de licenciar. Em 2025, pela primeira vez em anos, a composição mudou: gás natural, que oferece energia firme e despachável a qualquer hora — exatamente o perfil que operadores de data center dizem querer para rodar GPUs 24 horas por dia —, teve o maior salto percentual entre todas as fontes na fila.

Isso não significa que o gás vai efetivamente nascer nessa velocidade: turbinas de gás também enfrentam fila de fabricação de anos. Mas o sinal de intenção, medido pelos pedidos de interconexão, é claro: a demanda de energia firme para IA está sendo direcionada ao gás, não às renováveis.

A régua da FERC

Em 18 de junho de 2026, a Federal Energy Regulatory Commission (FERC), o regulador federal de energia dos EUA, deu 60 dias para os seis maiores operadores de rede do país — PJM, MISO, Southwest Power Pool, CAISO, ISO New England e NYISO — justificarem ou reformarem suas regras de interconexão para cargas grandes, com prazo adicional de 30 dias para relatórios de adequação de recursos explicando como vão atender essas novas cargas.

A ordem cita explicitamente "demanda sem precedentes por eletricidade, impulsionada em grande parte pelo crescimento de data centers" como motivo. Segundo a FERC, esses seis mercados atendem cerca de 200 milhões de americanos em mais de 30 estados e no Distrito de Columbia, cobrindo quase dois terços da demanda elétrica sob regras federais. As cinco frentes de reforma listadas pela comissão incluem pedidos de transmissão, mecanismos de rateio de custo, arranjos de co-localização com geração dedicada e serviços de carga flexível.

O que dizem os estudos

Queued Up: 2026 Edition (Lawrence Berkeley National Laboratory, 2026) é um relatório de dados oficiais, não um artigo revisado por pares nem um preprint — o LBNL agrega anualmente as filas de interconexão publicadas pelos próprios operadores de rede dos EUA, cobrindo sete ISOs/RTOs e cerca de 50 concessionárias, com cerca de 8.200 projetos ativos mapeados. A limitação central: a fila mede intenção de conectar, não construção garantida. Dos projetos que entraram na fila entre 2000 e 2020, apenas 13% a 19% chegaram a operar comercialmente até o fim de 2025. Aplicado aos 2.061 GW atuais, isso sugere entre 268 GW e 392 GW de capacidade que pode de fato chegar à operação; o restante será retirado ou ficará represado. Cerca de 75% dos projetos foi retirado.

A ordem show-cause da FERC (2026) é um ato regulatório federal, não um estudo amostral — define prazo para resposta dos operadores de rede, mas não garante por si só que as reformas propostas resolvam o gargalo de capacidade na prática.

O contraponto

Os 2.061 GW na fila não devem ser lidos como capacidade que vai de fato nascer. Historicamente, só entre 13% e 19% dos projetos que entraram na fila entre 2000 e 2020 chegaram a operar até 2025, e cerca de 75% foram retirados. Também vale lembrar que parte do apetite elétrico da IA está escapando da fila pública: acordos bilaterais de geração dedicada — gás ou energia nuclear comprometida direto com um data center, fora do processo de interconexão tradicional — não aparecem nesses números do LBNL, mas também pressionam o sistema elétrico americano e competem pelo mesmo gás natural, turbinas e capacidade de transmissão.

O que observar

Para quem acompanha a tese de "IA turbina energia limpa", três sinais valem monitorar nos próximos meses: a resposta dos seis operadores de rede à ordem da FERC, esperada a partir de agosto de 2026; a edição 2027 do relatório "Queued Up" do LBNL, que mostrará se o salto do gás natural em 2025 foi um pico isolado ou o início de uma tendência; e o volume de acordos bilaterais de geração dedicada fechados por grandes operadores de data center, que hoje escapam da estatística oficial de interconexão mas competem pelos mesmos recursos.

Fontes

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