Segunda-feira, 2 de novembro de 2026Inteligência artificial e tecnologia, todo dia
Análise · Tendências e Projeções

O que está travando a corrida da IA nos EUA: energia, oposição local e 47 data centers parados

O que está travando a corrida da IA nos EUA em 2026: energia, oposição local e os números que mostram por quê.

Por Redação Ai Lucro · · 6 min de leitura
Canteiro de obras de data center de IA interrompido ao entardecer, com guindastes parados e estrutura inacabada
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Pelo menos 47 grandes projetos de data center de IA foram atrasados, retirados ou bloqueados nos Estados Unidos em 2026, segundo levantamento da empresa de compliance RegLayer. No mesmo período, o banco de investimento Bernstein estimou que apenas cerca de 35% dos projetos atualmente planejados no país são viáveis. Os dois números, publicados em investigação do Financial Times no dia 18 de outubro, mostram que o ritmo de construção real não acompanha o capex anunciado pelas big techs.

A tese que sustenta a corrida da IA nos Estados Unidos sempre foi simples: quem tiver mais capacidade computacional ganha. Só que capacidade computacional depende de concreto, transformador e linha de transmissão antes de depender de GPU. E é exatamente nesse ponto, segundo os três conjuntos de dados reunidos aqui, que o plano está travando.

O gargalo não é dinheiro, é energia e licença

Os 47 projetos identificados pela RegLayer representam menos de 4% de sua base de 1.200 projetos monitorados nos EUA — a própria empresa descreve a estimativa como conservadora, o que sugere que o número real pode ser maior. A base também rastreia mais de 1.000 ações de políticas locais relacionadas ao setor de data centers.

A Bernstein, por sua vez, não mediu projetos específicos: avaliou o pipeline inteiro anunciado nos EUA frente a três restrições concretas — disponibilidade de energia, equipamento e financiamento — e chegou a um veredito de que só 35% do que está no papel tem chance real de sair dele.

A reportagem do Financial Times, reproduzida pelo Seoul Economic Daily, acrescenta outro dado que ajuda a explicar o travamento: mais de 1.000 comunidades americanas tentaram impor moratórias ou restrições à construção de infraestrutura de IA somente em 2026. Não é um movimento marginal — é oposição organizada em escala nacional, e ela está acontecendo justamente no momento em que Microsoft, Google, Amazon e Meta elevam o guidance de capex para 2026 e 2027.

O que dizem os estudos

RegLayer (relatório de empresa, 2026). A plataforma de compliance compilou registros locais, processos de concessionárias de energia e divulgações de empresas para identificar 47 grandes projetos atrasados, retirados ou bloqueados em 2026, dentro de uma base de mais de 1.200 projetos rastreados. Atualizado publicamente até 19 de outubro de 2026. Limitação: a RegLayer presta serviços de compliance para investidores do próprio setor de data centers, o que pode influenciar o critério do que ela classifica como "atraso" — não é uma auditoria independente nem um órgão regulador.

Bernstein (relatório de banco de investimento, 2026). Estimativa de analistas de que cerca de 35% dos projetos de data center de IA planejados nos EUA são viáveis, considerando restrições de energia, equipamento e financiamento. Citada na investigação do Financial Times, sem base de dados pública associada. Limitação: é a leitura de um banco com interesse comercial direto em recomendações sobre o setor, não um estudo com metodologia replicável aberta.

Data Center Watch, ligado à 10a Labs (relatório de grupo de pesquisa, 2025). Levantamento de registros de audiências públicas, processos municipais e petições entre maio de 2024 e março de 2025 identificou US$ 64 bilhões em projetos de data center afetados por oposição local nos EUA — US$ 18 bilhões bloqueados e US$ 46 bilhões atrasados — com 142 grupos ativistas organizados em 24 estados. A oposição é bipartidária: 55% de políticos locais republicanos e 45% democratas posicionados contra projetos específicos. Limitação: o levantamento é conduzido por um analista da 10a Labs, empresa que vende análise de risco geopolítico para o próprio setor de tecnologia; uma pesquisadora da Universidade de Illinois em Chicago especializada em grupos corporativos de fachada publicou crítica pública alegando que a organização não revelou esse vínculo por meses e que números como os "142 grupos ativistas" não vêm acompanhados de metodologia ou fontes verificáveis. O Data Center Watch nega conflito de interesse e afirma não receber recursos de clientes para o levantamento, mas a falta de transparência metodológica apontada por essa crítica pesa na leitura dos números. O período de coleta também é anterior ao pico de 2026.

Nenhum dos três é um estudo acadêmico revisado por pares — todos são relatórios de empresas ou grupos de interesse no setor, o que não invalida os números, mas exige a mesma régua de leitura que se aplica a qualquer relatório de analista: é uma estimativa com metodologia própria, não um dado oficial de governo.

O tamanho do que está em jogo

A reportagem do FT cita ainda a estimativa de Stijn Van Nieuwerburgh, professor da Columbia Business School, em documento do Brookings Institution: o gasto total em infraestrutura de IA nos Estados Unidos entre 2025 e 2032 pode chegar a US$ 10,3 trilhões, equivalente a 3,6% do PIB anual americano. O mesmo professor alerta que uma queda de 10% no fluxo de caixa das empresas do setor pode zerar o valor de seu capital próprio — uma margem de segurança financeira apertada para um ciclo de investimento dessa escala.

Os primeiros sinais de estresse já apareceram no mercado: ações da CoreWeave caíram 23,6% em uma semana, segundo a mesma apuração, e a Anthropic estaria avaliando cancelar um contrato de US$ 45 bilhões com a neocloud Nscale. O setor de neoclouds — provedores especializados em capacidade de GPU para treinar modelos de IA — vive hoje com centenas de operadores, mas executivos citados pelo site The Information projetam consolidação para cerca de 7 a 10 empresas nos próximos anos.

O contraponto: pode ser realocação, não colapso

Os 47 travamentos identificados pela RegLayer são uma fração pequena da base de 1.200 que a própria empresa monitora, e as quatro maiores hyperscalers continuam aumentando, não reduzindo, seus planos de capex para 2026 e 2027. Isso abre espaço para uma leitura alternativa à de "o ciclo de IA está travando": o capital pode simplesmente estar migrando para regiões com energia disponível e menos resistência local, em vez de recuar do setor como um todo.

A diferença entre as duas teses não é cosmética. Se for realocação, o investidor vê atraso localizado e component picking entre mercados de energia — um risco gerenciável. Se for gargalo estrutural, o descompasso entre capex anunciado e capacidade real de construir se torna uma variável de risco sistêmico para toda a cadeia, de fabricantes de chips a quem financia a dívida das neoclouds.

O que acompanhar

Três sinais separam as duas teses nos próximos meses: se os relatórios trimestrais de capex de Microsoft, Google, Amazon e Meta (quarto trimestre de 2026, esperados entre janeiro e fevereiro de 2027) mantiverem ou elevarem o guidance mesmo com os travamentos reportados, a leitura de realocação ganha força. Se o número de moratórias locais continuar subindo acima do ritmo de 2026, e se bancos como Bernstein revisarem a estimativa de viabilidade para baixo nos próximos relatórios, o cenário de gargalo estrutural se confirma. E vale observar de perto o desfecho do contrato Anthropic-Nscale: um cancelamento efetivo de US$ 45 bilhões seria o primeiro caso concreto de uma grande desenvolvedora de modelos recuando de um compromisso de infraestrutura dessa magnitude.

Fontes

data centersinfraestrutura de IABernsteinneocloudscapexenergia

Leia também