Character.AI pede recuperação judicial nos EUA e 40 estados pedem proteção às conversas dos usuários
A Character.AI pediu Chapter 11 em Delaware, a Disney ofereceu US$ 20 milhões pela tecnologia e 40 estados pedem proteção às conversas dos usuários.

A Character Technologies, dona do aplicativo de chatbots Character.AI, pediu recuperação judicial nos Estados Unidos em 12 de outubro e colocou seus ativos à venda. A Disney entrou na disputa com uma oferta de US$ 20 milhões por uma licença da tecnologia, mas deixou de fora justamente a parte mais sensível do espólio: o histórico de conversas dos usuários. Procuradores-gerais de 40 estados americanos já pediram ao juiz do caso que proteja esses registros, sobretudo os de adolescentes.
O pedido de Chapter 11, o equivalente americano à recuperação judicial, foi apresentado no tribunal de falências de Delaware, segundo a Reuters (a NBC News registra a entrada do processo na segunda-feira, 13). A empresa declarou ativos e passivos estimados entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões. Antes de ir ao tribunal, a companhia vinha queimando entre US$ 8 milhões e US$ 9 milhões por mês, pressionada por despesas jurídicas e pelo alto custo de capacidade computacional e de profissionais de IA, informou a mesma agência.
Fundado em 2021 por dois ex-funcionários do Google, o Character.AI teve sua tecnologia licenciada pelo próprio Google em 2024, quando os fundadores voltaram à empresa.
O que a Disney está comprando no Character.AI
Pelos US$ 20 milhões, a Disney ficaria com uma licença perpétua e não exclusiva de parte da propriedade intelectual e da tecnologia, além de contratar boa parte do time, conforme NBC News e Reuters. Ela aparece no processo como "stalking-horse bidder", figura usada em falências americanas para fixar um piso de preço: a oferta serve de referência, e outros interessados podem apresentar propostas melhores antes do leilão.
O acordo exclui de forma explícita os dados dos usuários — a Disney não tem interesse nos históricos de conversa, segundo a Reuters. A relação entre as duas empresas, aliás, não começou agora: em setembro de 2025, a Disney enviou uma notificação extrajudicial ao Character.AI exigindo a retirada de personagens protegidos por direito autoral, e o app removeu os bots, informou a NBC News.
A venda de ativos deve ser concluída no fim de novembro ou no começo de dezembro. A plataforma segue no ar durante o processo, mas, se não aparecer comprador, será encerrada, disse a empresa à NBC News.
Por que 40 estados entraram na disputa
Os procuradores-gerais pediram ao tribunal de Delaware salvaguardas obrigatórias para qualquer comprador, envolvendo histórico de conversas e recursos de segurança. "Esta empresa coletou alguns dos pensamentos mais privados que crianças já compartilharam, e agora essas conversas podem ser vendidas para quem pagar mais", afirmou a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, de acordo com a Reuters. Abigail Ryan, advogada que representa os estados, resumiu a preocupação à mesma agência: os estados querem negociar salvaguardas com os compradores, mas não aceitam que o que já aconteceu se repita com um novo dono.
A empresa chegou ao tribunal em meio a uma série de ações judiciais. A mais conhecida, movida pela mãe de um menino de 14 anos da Flórida que morreu por suicídio, foi resolvida por acordo, segundo a NBC News; a Reuters informa que a companhia fechou acordos preliminares com cinco famílias. Há ainda um processo do Kentucky alegando que os chatbots incentivaram usuários a se automutilar e outro da Pensilvânia afirmando que personagens se passaram por médicos. Autoridades dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Itália, da Rússia e da Austrália também abriram apurações sobre a plataforma, conforme a Reuters. Nenhuma dessas alegações foi julgada em definitivo.
Se você precisa de ajuda, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende de graça e 24 horas por dia pelo telefone 188 e pelo site cvv.org.br.
O que isso significa para quem usa chatbots no Brasil
O caso cria um precedente prático sobre uma pergunta que ainda não tinha resposta: o que acontece com conversas íntimas quando a empresa de IA que as guarda quebra. Em uma falência, dados de usuários são tratados como ativo, e é o juiz quem decide se podem ser vendidos, apagados ou transferidos com restrições.
A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) se aplica ao tratamento de dados de pessoas que estão no Brasil, inclusive quando feito por empresa no exterior, e prevê direitos como eliminação e portabilidade. Na prática, exercer esses direitos em um processo que corre em Delaware é lento — e nenhuma decisão brasileira foi anunciada neste caso até agora.
A recomendação geral vale para qualquer serviço de IA conversacional: tratar o histórico como algo que pode mudar de mãos, não colocar dados de saúde, documentos e informações de terceiros nessas janelas de conversa e usar as ferramentas de exclusão de histórico quando o aplicativo oferecer. No caso do Character.AI, o desfecho depende do leilão e das condições que o tribunal impuser ao vencedor, algo que deve ficar claro até o início de dezembro.
Fontes
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