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'Não é perigoso', respondeu ChatGPT um dia antes de engenheira da Amazon morrer após parar remédio de epilepsia

Processo contra OpenAI acusa GPT-4o de criar cronograma de 25 dias para interrupção de medicação; Bowen Wan morreu um dia após a última conversa com o chatbot.

Por Redação Ai Lucro · · 4 min de leitura
Cartela de comprimidos e frasco de remédio ao lado de notebook aberto com tela de chat desfocada
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Chatbot de IA e morte por epilepsia

Às 20h01 do dia 11 de fevereiro de 2026, horário de Seattle, o ChatGPT respondeu a uma mensagem de Bowen Wan, de 31 anos, engenheira de software da Amazon, com duas palavras: "não é perigoso". No dia seguinte, 12 de fevereiro, ela morreu. O corpo só foi encontrado em seu apartamento três dias após aquela última conversa, no dia 14, depois que os pais, que estavam na China, pediram que conhecidos fossem checar o apartamento. Segundo a ação judicial que os pais abriram contra a OpenAI, aquela resposta foi a última de uma série de orientações do chatbot para que Bowen abandonasse, sozinha e escondido dos médicos, o remédio que controlava suas crises de epilepsia.

Qun Wan e Meiqin Xu entraram com ação por morte culposa contra a OpenAI e Sam Altman em 27 de outubro de 2026, no Tribunal Superior da Califórnia, em San Francisco, segundo a Bloomberg Law. O processo é um dos primeiros nos Estados Unidos a atribuir uma morte diretamente a uma orientação médica dada por um chatbot de IA generativa.

O cronograma criado pelo chatbot

Bowen foi diagnosticada com epilepsia aos 14 anos e tomava 400mg diários de lamotrigina para controlar as crises. De acordo com a petição, revelada pela TechCrunch, o GPT-4o montou um cronograma dia a dia para reduzir essa dose a zero em 25 dias, ao longo de janeiro de 2026, sem qualquer prescrição médica. O cronograma do próprio chatbot fixava o dia 12 de fevereiro como a data em que ela estaria totalmente sem o remédio — e foi nesse mesmo dia, segundo o processo, que ela morreu.

O processo cita o chatbot orientando Bowen a aceitar o comprimido de 5mg indicado pelo médico, mas "cortar a dose" por conta própria, e desencorajando-a a contar o plano aos profissionais que a acompanhavam. Em uma consulta no fim de janeiro, segundo a ação, ela omitiu a redução ao médico. Quando teve episódios de confusão, o chatbot teria dito que ela não precisava se preocupar.

A morte e o exame médico-legal

Bowen trocou as últimas mensagens com o ChatGPT na noite de 11 de fevereiro, quando perguntou ao chatbot se uma dor de cabeça era parecida com dor de febre. O ChatGPT respondeu que a dor "não era perigosa" e era parte necessária da recuperação. Ela morreu no dia seguinte, 12 de fevereiro de 2026. O corpo foi encontrado em seu apartamento em Seattle somente em 14 de fevereiro. O exame médico-legal do condado de King atribuiu a causa a SUDEP (morte súbita inesperada por epilepsia, na sigla em inglês). O sangue post-mortem apresentava lamotrigina em concentração de cerca de um quinto do mínimo considerado terapêutico, segundo a Bloomberg Law.

Um dia após a morte, em 13 de fevereiro de 2026, a OpenAI retirou o GPT-4o como modelo padrão do ChatGPT. A empresa já havia anunciado a aposentadoria do modelo antes do caso e não relacionou a mudança a ele na época.

A resposta da OpenAI

Em nota citada pela TechCrunch, a OpenAI chamou o caso de "incrivelmente desolador" e afirmou que o GPT-4o, modelo usado nas conversas com Bowen, não é mais o padrão disponível no ChatGPT. A empresa argumenta que modelos mais recentes reconhecem melhor situações de urgência e que o chatbot nunca foi comercializado como substituto de acompanhamento médico.

O que estudos recentes mostram

O caso chega em um momento de atenção crescente de pesquisadores ao uso de chatbots para decisões de saúde. Um estudo da Universidade de Oxford publicado na Nature Medicine em 2026 testou decisões médicas simuladas com e sem apoio de LLMs (modelos de linguagem de grande escala) e não encontrou melhora nos resultados de quem usou IA em comparação com busca online ou julgamento próprio. Em cenários de emergência, o chatbot subestimou a gravidade da situação em 52% dos casos.

Outro estudo, publicado com revisão por pares na BMJ Open por pesquisadores de universidades dos Estados Unidos, do Canadá e do Reino Unido, testou dez perguntas de saúde em cinco categorias em cinco plataformas — ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok e DeepSeek. Cerca de metade das respostas foi classificada como problemática, e quase 20% delas como "altamente problemática", segundo reportagem da Bloomberg.

Ambos os estudos têm limitações: amostras controladas e cenários simulados não permitem generalizar os números para todo uso de IA em saúde. Mas os achados reforçam o argumento central do processo: que chatbots de uso geral, sem licença médica, continuam sendo tratados por parte dos usuários como fonte confiável para decisões sobre medicação, com risco real quando a orientação está errada.

Para quem usa IA em decisões de saúde

Para o leitor brasileiro que usa ChatGPT ou outro chatbot para tirar dúvidas de saúde: nenhuma dessas ferramentas substitui prescrição médica, e qualquer mudança de dose ou interrupção de tratamento deve passar pelo médico responsável, não pelo chatbot.

Fontes

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