O detalhe que o FSB descobriu: stablecoins com reservas plenas ainda enfrentam risco de corrida
FSB alerta para corrida estrutural em stablecoins mesmo com reservas cheias, enquanto indústria cripto pressiona EUA por regras mais brandas.

O mercado global de stablecoins pode sofrer corridas bancárias mesmo quando as reservas em dólar estão intactas. É o alerta que o Financial Stability Board (FSB) — órgão que reúne reguladores financeiros do G20 — publicou em 12 de outubro. A descoberta cai em um momento delicado: a indústria cripto está justamente pressionando os EUA para suavizar as regras que vão reger esse mercado a partir de janeiro de 2027.
O que muda com a Seção 3 do GENIUS Act
O período de comentários públicos sobre a regulação de stablecoins fechou nesta segunda-feira, 20 de outubro, com 123 submissões ao Tesouro americano. A mais relevante: uma carta de 26 páginas da Blockchain Association, principal associação do setor cripto nos EUA, pedindo para suavizar pontos-chave da Seção 3 do GENIUS Act.
A lei federal vai determinar quem tem autorização para emitir stablecoins legalmente — incluindo USDC e USDT, as duas maiores referenciadas ao dólar que já circulam amplamente no Brasil como porta de entrada para o mercado cripto.
O que a indústria está pedindo
Segundo a Blockchain Association, o pedido central é estreitar a definição de "Digital Asset Service Provider" (DASP), categoria que a regra usa para determinar quem precisa cumprir as novas obrigações. A associação argumenta que o Congresso escreveu essa definição pensando em empresas que atendem clientes, não em infraestrutura básica como software de autocustódia e validadores de rede.
A carta também pede um padrão de responsabilidade mais restrito: em vez de uma "participação consciente" ampla em possíveis violações, quer exigir "conhecimento real e assistência substancial" em coordenação direta com o emissor — o que excluiria negociações normais de mercado secundário. Um terceiro pedido: permitir que as empresas se apoiem em listas de proibição já publicadas por reguladores, em vez de criar seus próprios processos de verificação de emissores estrangeiros.
O Tesouro ainda não respondeu publicamente aos comentários. A regra final sai antes de janeiro de 2027.
O alerta que aponta para o risco oculto
Enquanto a indústria pede regras mais brandas, o FSB publicou um relatório com uma preocupação oposta: stablecoins com reservas plenas ainda podem sofrer corridas de resgate.
O mercado global de stablecoins somava cerca de US$ 300 bilhões em meados de 2026, com 99% do valor referenciado ao dólar. O risco identificado pelo FSB está na estrutura operacional: muitos emissores funcionam por meio de várias empresas afiliadas em países diferentes, compartilhando responsabilidade pelo mesmo token mas mantendo reservas separadas por jurisdição.
Em um cenário de estresse, se os pedidos de resgate se concentrarem em um país enquanto o colateral está guardado em outro, restrições bancárias locais, atrasos de liquidação e diferenças regulatórias podem atrasar o acesso às reservas — mesmo que elas existam e sejam suficientes no total. É um risco estrutural que não depende de fraude ou falta de dinheiro; depende de geografia e burocracia.
O relatório foi apresentado à reunião de ministros das finanças e presidentes de bancos centrais do G20 em 15 de outubro. As recomendações do FSB: acordos internacionais de compartilhamento de informação sobre circulação e localização de reservas, monitoramento mais próximo, e protocolos coordenados para gestão de crises envolvendo stablecoins em múltiplas jurisdições.
Por que isso importa para quem usa stablecoin no Brasil
A Seção 3 do GENIUS Act não é lei brasileira, mas vai moldar quem pode legalmente emitir as principais stablecoins em dólar negociadas no mundo — incluindo nas exchanges usadas por brasileiros para proteção cambial e remessas.
Uma regra mais permissiva manteria o mercado mais aberto a novos emissores e menos burocrático para infraestrutura técnica. Uma regra mais rígida exigiria mais exigências de transparência sobre onde as reservas de USDC e USDT realmente ficam guardadas — alinhado ao alerta do FSB.
O contraste resume a tensão do momento: o FSB alerta para um risco estrutural que existe hoje no mercado, sem acusar ninguém de fraude, enquanto a indústria regulada pressiona para que a nova lei americana seja o mais estreita possível antes de valer.
O que acompanhar
A próxima data que importa: quando o Tesouro americano publica a versão final da regra, esperado antes de janeiro de 2027. É quando se saberá se a indústria conquistou as mudanças que pediu ou se o alerta do FSB sobre risco sistêmico pesou mais.
Fontes
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