A ação da Vale agora negocia 24 horas numa blockchain, mas está em apenas 97 carteiras
Coinbase lançou uma versão tokenizada da ação da Vale que funciona 24 horas. Apenas 97 endereços estão usando. Como a promessa de tokenização contrasta com a realidade.

Desde 28 de outubro, a ação da Vale roda numa blockchain — negocia 24 horas por dia, inclusive fim de semana. Pode ser usada como garantia para empréstimo em stablecoin. O problema: apenas 4.380 unidades estão em circulação, espalhadas entre 97 endereços, com 1.352 transferências registradas até agora.
Aqui está o centro da tese: a tecnologia funciona. A adoção ainda é de nicho.
O que foi lançado
A Coinbase, por meio da rede Base, colocou no ar versões tokenizadas das ações de Vale, Santander, AB InBev e Unilever em 28 de outubro de 2026, segundo o Livecoins. O programa não é novo: começou em agosto, com Apple e Nvidia, e a própria Base confirma que "mais ações tokenizadas da Coinbase vão chegar nas próximas semanas".
A mecânica funciona assim: instituições formadoras de mercado compram as ações de verdade em bolsas tradicionais e as depositam com a Alpaca Markets, custodiante regulado sob estrutura "bankruptcy-remote" (isolada de eventual falência da plataforma) e supervisionado pelo ADGM (autoridade regulatória de Abu Dhabi). Na prática, quem compra o token tem direito direto sobre a ação de verdade depositada, não uma simples promessa.
O token segue o padrão B20, uma extensão do ERC-20 — o formato mais comum de token na Ethereum e em redes compatíveis, como a Base. A diferença do B20 é um multiplicador onchain que ajusta automaticamente a posição do investidor quando a empresa paga dividendo ou faz desdobramento de ações, sem precisar trocar a quantidade de tokens nem quebrar os contratos inteligentes de DeFi que já estão usando aquele ativo como garantia.
Para que serve, na prática
É aqui que a tese vira prática. O token pode ser negociado 24 horas por dia na exchange descentralizada Aerodrome, inclusive em fins de semana e feriados — algo impossível com a ação original na B3. E pode ser depositado como garantia na Aave, o maior protocolo de empréstimos descentralizados, para quem quiser tomar empréstimo em stablecoin sem vender a posição.
O acesso, porém, é limitado: o programa está disponível só para jurisdições elegíveis fora dos Estados Unidos, para quem tem carteira de autocustódia e conexão à internet — não é um produto de varejo plugado direto ao home broker brasileiro.
O número que contradiz o hype
Um levantamento de dados onchain publicado pela Forbes em julho de 2026 ajuda a enquadrar o caso da Vale num padrão maior. Segundo a reportagem, o mercado de ativos tokenizados soma cerca de US$ 60 bilhões, mas mais de US$ 32,9 bilhões espalhados em 910 ativos diferentes não registraram nenhuma transferência numa semana inteira. A Forbes descreve o cenário como uma "sala de espera": por restrições de acesso, 97% dos potenciais participantes do mercado global simplesmente não conseguem entrar.
Os 4.380 tokens da Vale distribuídos entre 97 endereços se encaixam exatamente nesse retrato. A infraestrutura existe, a negociação 24 horas é real, mas a liquidez — o que faz um mercado funcionar de verdade — ainda não chegou.
O que dizem os estudos
O Citi Institute, em relatório da série "Tokenization 2030" divulgado em 2026, projeta um cenário base de US$ 5,5 trilhões em ativos tokenizados até 2030, podendo chegar a US$ 8 trilhões num cenário otimista. É importante entender o que esse número representa: trata-se de um modelo de projeção construído sobre hipóteses de adoção setorial e avanço regulatório, não uma medição de mercado já existente. O próprio banco reconhece que depende de infraestrutura e regulação que, historicamente, avançam mais devagar do que os bancos preveem.
A análise da Forbes (julho) não é um estudo acadêmico — é um levantamento de dados onchain. Mas mede o presente, não o futuro: o que está de fato circulando hoje.
A distância entre os dois é o próprio tamanho da aposta. Um mostra para onde o setor financeiro diz que está indo. O outro mostra onde ele realmente está agora.
O que observar
Para quem acompanha o tema, três sinais valem mais do que o anúncio de um novo token:
- Volume de transferência semanal dos tokens de Vale, Santander, Unilever e AB InBev no BaseScan — não o anúncio de lançamento.
- Quanto desse volume vira de fato garantia ativa na Aave, e não apenas tokens parados em carteira.
- Se bancos brasileiros vão oferecer acesso a esses tokens para cliente de varejo, ou se o produto continua restrito a quem já opera com carteira própria fora do Brasil.
Nada aqui é recomendação de investimento. A tokenização de ações é uma tese de infraestrutura financeira, com projeções de trilhões de dólares em jogo, mas o caso da Vale mostra que, por agora, a distância entre o anúncio e o uso real ainda é grande.
Fontes
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