Segunda-feira, 2 de novembro de 2026Inteligência artificial e tecnologia, todo dia
Geopolítica da Tecnologia

Trump ordena data centers gerarem luz própria — 12 dias após sua FERC rejeitar a ideia

Trump anuncia que data centers de IA "terão que se autoalimentar", mas sem decreto. Sua própria FERC rejeitou proposta idêntica.

Por Redação Ai Lucro · · 4 min de leitura
Data center industrial ao entardecer com torres de transmissão de energia e casas residenciais ao fundo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

No Truth Social de 21 de outubro, Trump anunciou que data centers "grandes e novos" estão "mandados por mim" a gerar sua própria eletricidade. Tudo bem claro — exceto por um detalhe: nenhum decreto, ordem executiva ou regra formal sustenta essa ordem. É um anúncio político, nada que esteja em vigor.

A contradição que dura doze dias

Doze dias antes, em 9 de outubro, a Comissão Federal de Regulação de Energia (FERC) dos EUA — hoje com maioria republicana, construída com indicações do próprio Trump — rejeitou a maior parte de um plano idêntico. A PJM Interconnection, operadora da maior rede elétrica do país, havia proposto exatamente isso: deixar grandes consumidores de energia, como data centers, trazerem sua própria capacidade de geração para entrar na rede mais rápido, sem disputar a fila de novos projetos.

A FERC considerou a proposta uma interferência na autoridade dos estados e potencialmente discriminatória, conforme a Bisnow. Ou seja: a mesma lógica que Trump agora anuncia como mandato via rede social, seu próprio órgão regulador rejeitou como regra de mercado dias antes. A mensagem é dupla: política na rede social, regulação formal no órgão que ele controla.

Trump também sugeriu que as empresas paguem um "dividendo" aos moradores do entorno. O caso de Hazle Township, na Pensilvânia, porém, mostra por que o dinheiro não é suficiente: moradores rejeitaram recentemente um projeto de data center da Amazon Web Services mesmo depois de a empresa oferecer US$ 10 mil por residente. A resistência não é só financeira — é sobre conta de luz, ruído e uso de água.

Eleições em três semanas, pressão sobre energia

O timing é proposital. O Comitê Nacional Republicano do Senado (NRSC) alertou em agosto que a rejeição pública a data centers estava virando risco eleitoral em corridas-chave para o Senado — caso de Ohio, estado do senador Jon Husted. As eleições de meio de mandato estão marcadas para 3 de novembro. Energia e data centers de IA deixaram de ser pauta técnica e entraram na campanha.

Os números divergem

Uma reportagem da ConsumerAffairs, publicada neste ano, cita que os preços de eletricidade no mercado de atacado chegaram a subir até 267% em cinco anos em regiões de alta concentração de data centers — um número que fact-checkers como PolitiFact e a WRAL já classificaram como enganoso quando usado para descrever a conta residencial, já que o componente de atacado representa só uma fração (30% a 50%) da fatura final que chega ao consumidor. A mesma reportagem traz projeções, baseadas em modelagem da Carnegie Mellon e da North Carolina State University, de contas residenciais até 57% mais altas até 2030 em estados de forte crescimento de data centers, como Virgínia, Pensilvânia e Texas, com média nacional entre 6% e 29%. A ressalva: é modelagem acadêmica preliminar, não um estudo de impacto direto revisado por pares no sentido estrito, e compara preços por região sem isolar completamente outras causas do mesmo período — inflação, combustíveis, investimento em transmissão.

Do outro lado, um whitepaper da consultoria E3 (Energy + Environmental Economics), financiado pela Data Center Coalition — entidade que representa o setor —, revisou 11 estudos quantitativos recentes e fez análise própria dos leilões da PJM. A conclusão: não há evidência histórica de que data centers, sob as estruturas tarifárias atuais, estejam causando os aumentos nas contas residenciais. Para a E3, inflação, preço do gás natural, investimento em resiliência e modernização da transmissão pesam mais — Texas e Virgínia, com forte crescimento de data centers, tiveram altas moderadas, enquanto Califórnia e Nova York subiram mais mesmo com demanda em queda. A ressalva óbvia: o financiamento vem do próprio setor.

O que acompanhar

Três movimentos definem o que vem a seguir. Primeiro: se o anúncio de Trump vira ordem executiva ou proposta de lei formal. Segundo: o resultado das eleições de 3 de novembro em estados com forte presença de data centers, como Ohio e Pensilvânia. Terceiro: se a FERC abre uma nova rodada sobre autogeração de grandes cargas na PJM, depois de ter travado a primeira. É o atrito entre pressão eleitoral, regulação energética e a conta de luz de quem vive ao lado do data center que vai ditar o ritmo da expansão de infraestrutura de IA nos EUA até 2027 e além.

Fontes

data centersenergiaTrumpFERCeleições EUAinteligência artificial

Leia também