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As três rotas que permitiram 115 mil chips Nvidia chegar à China apesar do embargo dos EUA

Universidades chinesas, rotas via Vietnã, Índia e Malásia, e uma importadora com US$ 4,6 bilhões em hardware. Como o contrabando de chips Nvidia furou os controles dos EUA.

Por Redação Ai Lucro · · 5 min de leitura
Contêineres e caixas de servidores de computador sendo carregados em um caminhão em um pátio portuário noturno no Sudeste Asiático
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Cerca de 115 mil processadores Nvidia sob restrição de exportação já teriam chegado à China por rotas não autorizadas, segundo fontes do governo dos Estados Unidos citadas pela Bloomberg. A reportagem partiu de um levantamento de documentos de investimento e licitação que mostra empresas chinesas planejando instalar mais de 115 mil chips H100 e H200 em cerca de três dezenas de data centers nos desertos do oeste do país — e fontes da área de segurança dos EUA acreditam que o contrabando já supriu volume igual ou maior que esse. É a estimativa mais concreta até agora de um problema que Washington, Taipei e a própria Nvidia reconhecem não ter resolvido: os controles de exportação dos EUA não pararam o fluxo para a China, só o tornaram mais caro, mais lento e mais dependente de intermediários no Sudeste Asiático. Universidades chinesas compram direto, cargas são desviadas via Vietnã, Índia e Malásia, e empresas de fachada movimentam bilhões em hardware sem que ninguém precise provar que o destino é Pequim.

As três rotas identificadas

Um levantamento da organização de pesquisa sem fins lucrativos C4ADS, batizado de "Covert Compute" e publicado em 2026, cruzou registros do governo chinês, dados de comércio do Sudeste Asiático e informações corporativas para mapear como chips restritos da Nvidia seguem chegando à China. O relatório descreve três mecanismos:

Compras diretas por universidades chinesas: 56 chips sob restrição, somando US$ 1,7 milhão, adquiridos entre julho de 2025 e janeiro de 2026.

Transbordo via países terceiros: 50 remessas, cerca de US$ 13,4 milhões, passando por Vietnã, Índia e Malásia antes de seguir para Hong Kong e a China continental entre 2023 e 2025.

Estruturas corporativas opacas: a importadora Megaspeed International Pte. Ltd. trouxe US$ 4,6 bilhões em hardware Nvidia entre 2022 e 2025, com beneficiários finais que, segundo o relatório, podem estar ligados à China.

A C4ADS alerta sobre seus próprios limites: a janela de dados analisada foi de apenas seis meses de registros governamentais, o que faz a organização afirmar que os números "quase certamente subestimam o volume real de chips desviados". No caso da Megaspeed, o relatório não prova que os US$ 4,6 bilhões em chips foram de fato contrabandeados — apenas identifica um padrão de risco em como a empresa opera.

Casos que já foram a tribunal

Enquanto a C4ADS mapeia padrões, a Justiça americana já processou gente por isso. Em novembro de 2025, o Departamento de Justiça dos EUA indiciou quatro réus que usaram uma imobiliária de fachada na Flórida para desviar 400 GPUs Nvidia A100 para a China entre outubro de 2024 e janeiro de 2025, segundo o The Register. O grupo também tentou exportar 50 GPUs H200 e dez supercomputadores HPE equipados com aceleradores H100, e recebeu mais de US$ 3,89 milhões em transferências vindas da China.

Outros dois casos relatados pelo Engadget mostram a mesma lógica em escalas maiores. Em outubro de 2026, Greg Lui, dono da Earthmade Computer Inc., foi preso acusado de contrabandear US$ 300 milhões em servidores com chips Nvidia para a China sem licença de exportação. Em um caso separado, cerca de US$ 2,5 bilhões em servidores de IA ligados à fabricante Super Micro estão no centro de uma investigação que tem o cofundador da empresa, Yih-Shyan "Wally" Liaw, entre os acusados.

A evidência: relatório de código aberto e ações federais

Este texto se sustenta em dois tipos de fonte. O primeiro é o relatório "Covert Compute" da C4ADS (2026), que cruzou registros oficiais chineses, dados de comércio regional e análise de redes de propriedade corporativa para identificar as três rotas acima — uma amostra de seis meses que a própria organização reconhece subestimar o problema real. Não é um artigo revisado por pares, mas é um documento de inteligência de código aberto baseado em dados públicos.

O segundo é documentação oficial: indiciamentos federais do Departamento de Justiça dos EUA contra contrabandistas, baseados em documentos de embarque, contratos e registros financeiros apresentados em tribunal distrital americano. Esses casos são específicos e processados, não uma medida do tamanho total da rede — mas têm o peso de prova judicial.

O contraponto: os controles estão tendo efeito — e a Nvidia contesta a escala

A Nvidia nega qualquer responsabilidade direta e afirma que não há acusação de que tenha violado controles de exportação ou ajudado deliberadamente contrabandistas, dizendo cumprir as regras em vigor. Sobre a estimativa de 115 mil chips desviados, a empresa argumenta que a escala é irrelevante frente à sua produção total: um porta-voz afirmou que promotores dos EUA alegam que menos de 0,5% dos produtos da Nvidia foram desviados para destinos não autorizados.

Um dado, porém, sugere que o embargo não é inócuo: segundo a consultoria IDC, a fatia da Nvidia no mercado de chips de IA da China caiu para 34% no primeiro semestre de 2026, com queda de 44% nas exportações ano a ano. Ou seja, mesmo com rotas de desvio ativas, o controle de exportação parece estar reduzindo o acesso legal e elevando o custo do acesso ilegal — não eliminando o problema, mas encarecendo e afunilando ele.

Taiwan fecha uma brecha

Um dos pontos mais frágeis da fiscalização até agora era Taiwan, onde a fabricação de chips avançados é concentrada mas a exportação não autorizada para a China não era crime. Isso muda: em 16 de outubro de 2026, o governo taiwanês anunciou que vai criminalizar a exportação não autorizada de chips e servidores de IA para a China, com pena de até cinco anos de prisão, segundo o Tech Times. A medida cumpre uma obrigação do acordo comercial que Taipei firmou com os EUA em 12 de fevereiro de 2026, e elimina dos contrabandistas o que a reportagem chama de "porto seguro" legal.

O que observar

Para quem acompanha o risco regulatório da Nvidia e a eficácia real dos controles de exportação, três frentes merecem monitoramento: se o Departamento de Justiça dos EUA vai abrir novos indiciamentos a partir dos padrões mapeados pela C4ADS, especialmente envolvendo a Megaspeed; como a nova lei taiwanesa, uma vez em vigor, afeta o volume de remessas via Sudeste Asiático; e se a próxima leitura trimestral da IDC sobre a fatia de mercado da Nvidia na China confirma a tendência de queda ou mostra estabilização, o que indicaria que os desvios estão compensando a perda de vendas legais.

Co-Authored-By: Claude Haiku 4.5 noreply@anthropic.com

Fontes

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