Nvidia aposta US$ 10 bilhões em hub de IA no Cazaquistão — o mesmo país que reexporta chips para a Rússia
Jensen Huang anuncia 45 mil GPUs e um "hub de fábrica de IA" no Cazaquistão, país que autoridades dos EUA documentam como rota ativa de chips sancionados para a Rússia.

Jensen Huang anunciou em 23 de outubro um hub de IA de US$ 10 bilhões no Cazaquistão, marcando a próxima fronteira da corrida por compute: depois do Golfo Pérsico e Sudeste Asiático, EUA e Nvidia perseguem a Ásia Central atraídos por energia barata e terreno disponível. Paradoxo: inteligência ocidental documenta que o mesmo país é rota ativa de reexportação de tecnologia sancionada para a Rússia. Essa contradição resume o risco geopolítico que a administração Biden abraça no nome da competição de compute.
O acordo: 45 mil GPUs e um "Vale do Data Center"
A startup americana Firebird AI assinou acordo com o governo cazaque e obteve licença de exportação dos Estados Unidos para 45 mil GPUs Nvidia Grace Blackwell, segundo o Dealroom. O projeto constrói, em parceria com a estatal Kazakhtelecom, a primeira fase de um data center no chamado "Data Center Valley", em Ekibastuz, com lançamento comercial previsto para o terceiro trimestre de 2027.
Os números por trás do projeto são grandes mesmo para o padrão da indústria de IA. Cazaquistão e Nvidia assinaram em junho de 2026 acordos de até US$ 10 bilhões ligados ao Data Center Valley, e a Freedom Holding Corp comprometeu outros US$ 2 bilhões para um "Sovereign AI Hub" rodando infraestrutura Nvidia. A meta de capacidade instalada chega a 1 gigawatt em fases, com a primeira instalação de 50 megawatts prevista para junho de 2027 e o primeiro bloco de 215 megawatts já totalmente reservado, de acordo com dados publicados pelo Cyprus Mail. Funcionários cazaques estimam que a exportação de capacidade computacional pode gerar ao menos US$ 3 bilhões por ano ao país.
Para Huang, o diferencial é político, não só técnico. Segundo o Cyprus Mail, o executivo da Nvidia afirmou que o Cazaquistão foi "o primeiro país que visitei onde o presidente declarou o desenvolvimento de IA uma prioridade nacional".
O que dizem os estudos
O Carnegie Endowment for International Peace publicou em 2026 o relatório "The Compute Coalition: How to Build the Future of AI in the Free World", de Phillips-Robins, Tawil e Winter-Levy. O achado central: até maio de 2025, quase três quartos dos clusters avançados de computação de IA do mundo estavam em solo americano, e o fator que mais determina a competitividade de um país para atrair infraestrutura de IA é o "tempo até a energia" — a velocidade de conexão à rede elétrica —, mais do que o custo de capital. O estudo usa um modelo financeiro comparando custos de construção, operação, impostos e cronogramas de data centers em dezenas de países. É um relatório de think tank de política externa, não peer-reviewed, e traz uma recomendação explícita: criar uma coalizão de países democráticos para competir em compute. Isso ajuda a entender por que a Ásia Central, com energia farta e terreno disponível, virou alvo depois do Golfo.
Já o CSIS (Center for Strategic and International Studies), em "Beyond the U.S.-China Binary: The New Landscape of AI Partnerships in the Global South", também de 2026, mostra que países de potência média estão diversificando parcerias de IA entre EUA e China em vez de escolher um único bloco, usando acesso a chips e nuvem como moeda de barganha geopolítica. A análise é qualitativa, comparando acordos de infraestrutura de IA assinados por governos fora do eixo EUA-China, sem dados quantitativos consolidados sobre volume de chips por país. O Cazaquistão se encaixa nesse padrão: fecha com a Nvidia americana ao mesmo tempo em que mantém laços econômicos profundos com Rússia e China, seus vizinhos.
O contra-argumento: a rota que já existe
Aqui está o ponto que a Casa Branca precisa explicar. Uma investigação da RFE/RL mostra que, após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, as importações cazaques de computadores saltaram 700%, para US$ 1,2 bilhão em 2022, e as exportações cazaques para a Rússia multiplicaram por cerca de 2.300 vezes no período, somando por volta de US$ 300 milhões. Documentos citados por órgãos dos EUA apontam que as exportações cazaques de microchips para a Rússia saltaram de US$ 245 mil para US$ 18 milhões entre 2021 e 2022.
A reportagem identificou componentes de uso duplo da Analog Devices redirecionados para equipamento militar russo: uma empresa cazaque, a EltexAlatau, despachou transceptores que bateram com peças recuperadas de tanques russos T-72B3M, enquanto uma empresa do Quirguistão enviou, pela mesma rota regional, amplificadores da série AD822 usados em rádios táticos russos do tipo Aqueduct — evidência de que o corredor de transbordo abrange toda a Ásia Central, com o Cazaquistão como peça central.
Ou seja: o governo americano está autorizando a exportação de 45 mil GPUs de ponta para uma região que seus próprios serviços de inteligência documentaram como corredor de transbordo de tecnologia sancionada. A licença de exportação da Nvidia presumivelmente vem com controles de uso final e auditoria, mas o histórico recente do Cazaquistão nessa função é o argumento mais forte contra a narrativa de "hub seguro para o Ocidente".
O que observar
Três pontos merecem acompanhamento. Primeiro, se o Departamento de Comércio dos EUA detalhar publicamente as condições de uso final exigidas da Firebird AI e da Kazakhtelecom para as GPUs Grace Blackwell — hoje isso não é público. Segundo, o cronograma real do Data Center Valley: a primeira fase de 50 megawatts está marcada para junho de 2027, e qualquer atraso ou mudança de escopo é sinal de atrito político ou técnico. Terceiro, se novos relatórios de órgãos como o Tesouro ou o Senado dos EUA voltarem a citar o Cazaquistão em casos de desvio de tecnologia — isso invalidaria rapidamente a tese de que o país virou um parceiro de compute confiável para o Ocidente.
Isto não é recomendação de investimento. É um retrato de como a geopolítica dos chips está se movendo para territórios onde energia é barata e supervisão é incerta.
Fontes
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