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Geopolítica da Tecnologia

Pesquisadores do DeepMind saem por IA militar: o contrato que a Google não consegue controlar

Sofia Liguori e pesquisadores do Google DeepMind saíram alegando que contratos militares têm cláusulas tão amplas que nem a Google consegue auditar como a IA é usada.

Por Redação Ai Lucro · · 3 min de leitura
Sala de servidores corporativa à noite com luz azul fria e monitores exibindo redes abstratas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Sofia Liguori, engenheira de pesquisa do Google DeepMind em Londres, pediu demissão depois de três anos dizendo estar "envergonhada" com o crescente envolvimento da empresa em projetos de inteligência artificial militar, segundo reportagem do site israelense Ynetnews. Ela não saiu sozinha.

O pesquisador Andreas Kirsch também deixou o DeepMind no início de outubro de 2026, questionando a falta de governança interna para o uso de IA em operações militares classificadas. Os dois casos expõem uma fratura que já era conhecida, mas que ganhou nomes e rostos.

Contratos militares sem auditoria

Segundo o Ynetnews, o atrito interno gira em torno dos termos do acordo da Google com o Pentágono, que autoriza o uso dos modelos de IA da empresa para "qualquer propósito governamental lícito" — incluindo operações militares classificadas. Para parte dos pesquisadores, essa cláusula ampla abre espaço para aplicações que a empresa não consegue auditar nem controlar depois de assinado o contrato.

Outro alvo recorrente dos protestos internos é o Project Nimbus, contrato de computação em nuvem de cerca de US$ 1,2 bilhão fechado em 2021 entre Google, Amazon e o governo de Israel. O projeto fornece infraestrutura de nuvem e IA a agências do governo israelense, incluindo o setor de defesa, e se tornou o símbolo da tensão entre o discurso público de ética em IA da Google e seus contratos governamentais.

Medo de represália

Uma investigação da BBC publicada em 21 de outubro de 2026 e replicada pela rádio LBC documentou relatos de funcionários atuais e ex-funcionários do DeepMind que dizem temer represália ao questionar internamente os contratos militares da empresa. A reportagem descreve um ambiente em que levantar objeções éticas sobre o uso militar da tecnologia é visto como arriscado para a carreira dentro do laboratório.

Essa não é a primeira vez que o tema aparece de forma organizada. Em maio de 2026, segundo a Fortune, mais de 600 funcionários da Google assinaram uma carta aberta contra o acordo da empresa com o Departamento de Defesa dos EUA, em um episódio que coincidiu com uma votação sindical dentro do DeepMind: 98% dos membros do sindicato Communication Workers Union (CWU) no laboratório votaram a favor de buscar reconhecimento sindical, movimento que pode abranger cerca de mil funcionários do escritório de Londres.

A resposta da Google

Procurada pela BBC, a Google afirmou manter um "processo consistente" para avaliar contratos do setor público, disse que segue seus próprios Princípios de IA e garantiu que oferece canais internos para que funcionários levantem preocupações éticas sem sofrer retaliação, segundo a LBC. A questão é que essas garantias não impedem o que a matéria revela: pesquisadores ainda estão deixando a empresa justamente porque, segundo os termos dos contratos, a própria Google não consegue auditar o uso final de seus modelos depois que os acordos governamentais são assinados.

Por que isso importa para quem acompanha geopolítica da IA

O caso do DeepMind não é isolado. Outras big techs com contratos de defesa — Microsoft, Amazon, Palantir — enfrentam versões do mesmo dilema: laboratórios de IA que vendem capacidade de computação e modelos a governos têm cada vez menos controle sobre o uso final dessa tecnologia em contextos de guerra. A diferença é que, no DeepMind, esse atrito está vindo de dentro, de gente que assina os próprios modelos.

Para quem acompanha a corrida de IA entre grandes potências, o episódio sinaliza que o problema não é a existência de contratos militares — é o controle sobre eles. A pressão vem agora de dentro dos próprios laboratórios, e pode se tornar um ponto de disputa recorrente. Vale observar se outras demissões ou cartas internas aparecem em concorrentes com contratos de defesa semelhantes, e se o Pentágono ou o governo israelense alteram cláusulas de auditoria em resposta à pressão pública.

Fontes

Google DeepMindPentágonoProject NimbusIA militarIsrael

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