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O aviso que a própria LayerZero ignorou: como a Coreia do Norte limpou US$ 292 milhões em cripto

LayerZero ignorou sua própria recomendação de segurança. Coreia do Norte não. Explorou essa falha e roubou US$ 292 milhões.

Por Redação Ai Lucro · · 4 min de leitura
Representação abstrata de uma ponte de dados digital fragmentada com circuitos vermelhos cruzando conexões azuis sobre fundo escuro
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Em 18 de abril de 2026, um grupo ligado à Coreia do Norte drenou 116.500 rsETH, cerca de US$ 292 milhões, de uma bridge que conectava o protocolo de restaking líquido Kelp DAO a outras blockchains. O método não foi um bug de contrato inteligente. Foi a exploração de uma configuração com verificador único (1-de-1 DVN) que a própria LayerZero já recomendava não usar para ativos de alto valor.

O caso virou o maior exploit de DeFi de 2026 e hoje é processo na Justiça canadense. Para quem acompanha a infraestrutura cripto, ele é também um raio-x de como um ator estatal ataca sistemas de verificação cross-chain, e de quem paga a conta quando a arquitetura de segurança falha.

Como o ataque funcionou

Segundo o post-mortem técnico publicado pela LayerZero Labs em 20 de maio de 2026, a bridge da Kelp DAO usava um verificador único (Decentralized Verifier Network), com a própria LayerZero como único validador das mensagens entre cadeias. Essa configuração contradizia a recomendação padrão da empresa, que orienta o uso de múltiplos verificadores independentes para reduzir o risco de um ponto único de falha.

Os atacantes não romperam o protocolo da Kelp DAO. Eles comprometeram a infraestrutura de RPC — os servidores que alimentam o verificador com dados brutos das transações — substituindo o software desses nós para reportar informações falsas sobre o que estava acontecendo nas cadeias de origem. Enquanto isso, lançaram um ataque de DDoS contra os endpoints RPC não comprometidos, forçando o sistema a fazer failover para os nós já envenenados. Os dados verdadeiros continuaram sendo enviados aos serviços de monitoramento, mascarando o ataque em tempo real.

A emergência multisig da Kelp DAO pausou os contratos 46 minutos após o primeiro drenamento, o que bloqueou duas tentativas seguintes de roubo que somariam outros 40.000 rsETH, cerca de US$ 100 milhões.

A LayerZero atribuiu o ataque, com "confiança preliminar", à Lazarus Group e sua célula TraderTraitor, historicamente ligada a operações de roubo de cripto do governo norte-coreano.

O que dizem os estudos

LayerZero Labs (relatório de empresa, 2026) — análise forense interna da própria infraestrutura de mensageria cross-chain concluiu que os dois nós RPC do verificador foram comprometidos e tiveram o software substituído, em paralelo a um DDoS que forçou o failover para os nós maliciosos. A atribuição à Lazarus/TraderTraitor foi classificada pela empresa como preliminar. Limitação central: a LayerZero é parte interessada, já que está sendo processada pela Kelp DAO pela responsabilidade do design que permitiu o ataque, o que pode influenciar como ela descreve os fatos.

Chainalysis (relatório de empresa, 2026) — rastreamento on-chain assistido por IA mostra que grupos ligados à Coreia do Norte já roubaram mais de US$ 1 bilhão em criptoativos somente em 2026, incluindo US$ 387 milhões subtraídos da exchange Bitget em 24 de setembro, movimentados em três horas por Ethereum, XRP, Zcash e Tron. A metodologia usa automação para reconstruir fluxos entre pontes e protocolos de liquidez cross-chain, reduzindo de 20 horas para menos de 10 minutos a reconciliação manual de uma bridge, segundo a empresa. Limitação: a atribuição a atores estatais parte de heurísticas comportamentais e de infraestrutura, não de confirmação de inteligência governamental independente, e a Chainalysis vende serviços de compliance cripto, o que cria incentivo comercial para destacar o problema.

O contra-argumento: de quem é a culpa pelo design

A Kelp DAO, por meio da controladora Evercrest Technologies, processou a LayerZero Labs e seu CEO, Bryan Pellegrino, em 24 de setembro de 2026 na Colúmbia Britânica. A tese da Kelp DAO inverte a narrativa de "ataque estatal inevitável": segundo a ação, a configuração de verificador único era o padrão documentado da própria plataforma LayerZero, que teria revisado e aprovado por escrito a implementação da Kelp. A LayerZero contesta, dizendo que recomendou múltiplos verificadores e que a Kelp optou pelo modelo único por conta própria.

O detalhe que pesa contra a LayerZero: em maio, a empresa reconheceu publicamente ter "cometido um erro ao permitir que seu DVN atuasse como 1/1 para transações de alto valor". Ou seja, parte da falha que abriu a porta para a Lazarus Group não foi um ataque estatal imbatível, mas uma escolha de governança de infraestrutura que a própria LayerZero já admite ter sido equivocada.

O que observar

Para quem acompanha segurança de infraestrutura DeFi, o caso Kelp DAO-LayerZero é um teste de como o setor trata verificadores únicos em pontes de alto valor daqui para frente: quantos protocolos ainda usam configuração 1-de-1 e quando migram para multi-verificador. Vale acompanhar o andamento do processo na Colúmbia Britânica, que pode estabelecer precedente sobre responsabilidade de provedores de infraestrutura cross-chain. E, no quadro mais amplo, o total acumulado por grupos ligados à Coreia do Norte em 2026, já acima de US$ 1 bilhão segundo a Chainalysis, é o indicador para medir se a pressão de sanções e rastreamento on-chain está de fato encarecendo o roubo estatal de cripto ou apenas deslocando o alvo para a próxima falha de design.

Fontes

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