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Energia nuclear para IA: Alemanha estuda reanimar usinas mortas com ajuda da Nvidia

Três anos depois de desligar reatores, Alemanha estuda usar usinas nucleares mortas para alimentar data centers de IA com Nvidia e E.ON.

Por Redação Ai Lucro · · 4 min de leitura
Torres de refrigeração de usina nuclear desativada ao fundo, com racks de data center sendo instalados em primeiro plano
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A PreussenElektra, subsidiária da E.ON responsável por descomissionar as usinas nucleares da Alemanha, anunciou em 22 de outubro uma parceria com a Nvidia para avaliar a conversão de antigos sites nucleares em data centers de IA. O detalhe que dá a dimensão da contradição: há mais de três anos, a Alemanha desligou seus últimos reatores em operação como ponto final de uma política que durou mais de uma década. Agora, a infraestrutura dessas usinas mortas pode virar o chão onde a IA roda.

O apetite de energia da inteligência artificial é tão grande que a Alemanha está sendo forçada a reaproveitar ativos que descartou por decisão política. Se a conversa prosperar, o padrão pode se repetir em qualquer lugar com infraestrutura elétrica ociosa e pressão para atrair investimento em IA.

O acordo é exploratório, e isso importa

Segundo a Bloomberg e o site especializado TFTC, o anúncio da PreussenElektra com a Nvidia não tem termos financeiros, não define sites específicos e não tem cronograma. É um acordo para "avaliar" o reaproveitamento, não um contrato de construção. O veículo alemão energate-messenger cita fontes de mercado apontando que cerca de sete instalações da PreussenElektra estariam sob análise, mas a empresa não confirmou publicamente esse número.

Essa imprecisão não é só detalhe editorial: ela separa um fato (a parceria existe e foi formalmente anunciada) de uma expectativa (quantos sites, quando, com que investimento). Para quem acompanha o setor, é a diferença entre noticiar um acordo e noticiar uma promessa.

Por que havia usinas nucleares mortas para reaproveitar

A Alemanha desligou seus três últimos reatores em operação em 15 de abril de 2023, encerrando um processo de saída da energia nuclear iniciado no governo de Angela Merkel como resposta ao desastre de Fukushima, em 2011. A decisão foi política e teve apoio amplo na sociedade alemã, que historicamente resiste à energia nuclear.

O que sobrou dessas usinas, segundo o TFTC, não é pouco: mesmo em processo de descomissionamento, os sites mantêm conexões de alta tensão com a rede elétrica, capacidade estrutural das construções e sistemas de resfriamento que ainda funcionam. São exatamente os três recursos mais caros e mais lentos de construir para quem quer erguer um data center de IA em escala: ligação robusta à rede, terreno já licenciado para uso industrial pesado e sistema de refrigeração.

O apetite de energia que destravou a conversa

O gatilho por trás desse movimento é a projeção de consumo de energia dos data centers alemães. Um estudo setorial encomendado pelo Ministério da Economia alemão (BMWE) e conduzido pelo Borderstep Institut projeta que a demanda de energia dos data centers no país deve saltar para 31 terawatts-hora (TWh) em 2030 e chegar a 80 TWh em 2045. A capacidade instalada do setor, que era de 2.730 megawatts (MW) em 2024, precisaria passar de 4.800 MW já em 2030.

Esses números não são exclusivos de IA: é a demanda de todo o setor de data centers, incluindo nuvem, telecom e processamento tradicional. Mas é a IA, com seus clusters de GPUs que consomem energia continuamente em alta carga, que vem puxando a curva para cima mais rápido do que a rede elétrica alemã consegue acompanhar com geração nova.

O que dizem os estudos

  • Borderstep Institut / BMWE (2025) — estudo setorial encomendado pelo governo alemão: demanda de energia de data centers deve ir de patamares atuais para 31 TWh em 2030 e 80 TWh em 2045, com capacidade instalada superando 4.800 MW em 2030 (contra 2.730 MW em 2024). É um relatório de dados oficiais, baseado em projeção de capacidade e consumo do setor, não um artigo revisado por pares. Limitação: mede o setor de data centers como um todo, não isola o consumo específico de cargas de IA, e depende de premissas de crescimento que podem não se confirmar no ritmo projetado.

Não há, até agora, estudo acadêmico ou técnico público detalhando o retrofit elétrico de sites nucleares para data centers de IA na Alemanha — o que existe é a cobertura jornalística do acordo PreussenElektra-Nvidia, que é a base factual desta análise, e a projeção de demanda do Borderstep Institut, que explica o contexto que torna esse acordo racional.

O contra-argumento: pode não sair do papel

A própria cobertura da Bloomberg e do energate-messenger é explícita: sem termos financeiros, sem sites definidos e sem cronograma, o acordo pode simplesmente não avançar. Converter um site nuclear desativado em data center de IA exige licenciamento ambiental, obras de adaptação e, provavelmente, novos contratos de fornecimento de energia — nenhum desses passos foi confirmado. Há uma distância grande entre "avaliar a conversão" e "construir o data center".

O que observar

Para quem acompanha o cruzamento entre energia e IA, os sinais que confirmam ou enterram essa tese vão aparecer em etapas específicas: o anúncio de um site nuclear nomeado (não mais "cerca de sete"), a divulgação de valores de investimento, e qualquer licença ambiental protocolada para esses terrenos. Vale também observar se outros países com usinas nucleares desativadas — Japão, Reino Unido, parte dos EUA — recebem propostas parecidas de operadores de data center nos próximos meses. Se o padrão se repetir fora da Alemanha, o sinal fraco de hoje vira tendência estrutural do setor de energia para IA.

Fontes

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