Deepfakes somam 554 casos no 1º turno das eleições, aponta levantamento da Lupa e Unicamp
Projeto VigIA confirmou 920 peças feitas com IA no primeiro turno, 554 delas deepfakes, e metade sem o aviso obrigatório. Veja como identificar vídeos falsos.

Um levantamento do projeto VigIA, da agência de checagem Lupa em parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp, confirmou 920 peças produzidas com inteligência artificial nas eleições deste ano. Dessas, 554 eram deepfakes, ou seja, vídeos, áudios e imagens que simulam falas e atitudes de pessoas reais. O relatório foi divulgado em 1º de outubro e cobre o período de 16 de agosto a 28 de setembro, o primeiro turno.
Os números do primeiro turno
Os pesquisadores coletaram 1.941 postagens suspeitas e usaram programas de detecção e checagem humana para confirmar o uso de IA. As deepfakes representam cerca de 60% das peças confirmadas.
Só 371 das 920 peças traziam a rotulagem obrigatória que avisa que o conteúdo foi gerado ou alterado por IA. As outras 549 estavam em situação irregular, incluindo 75 publicadas por partidos e candidatos.
Quem mais produz esse material, de acordo com a reportagem do Terra, são pessoas comuns e perfis sem identificação: 525 das 554 deepfakes vieram deles, e 29 de perfis mantidos por partidos ou candidatos. A promoção de candidaturas motivou 45% das publicações confirmadas, e o restante se dividiu entre ataques a adversários e sátira.
Entre os presidenciáveis, Lula apareceu em 379 peças e Flávio Bolsonaro em 190. No caso de Lula, cerca de 39% tinham tom humorístico e 34% buscavam atacar a imagem. No de Flávio, cerca de 40% tentavam favorecê-lo e 28% eram satíricas.
A fundadora da Lupa, Cristina Tardáguila, afirmou que a tecnologia já faz parte da comunicação política do dia a dia, e não apenas de episódios isolados.
Um caso que circulou no WhatsApp
Um exemplo recente é o vídeo falso em que o jornalista William Waack, da CNN Brasil, aparece dizendo que Lula planejaria um golpe de Estado. A CNN Brasil desmentiu o conteúdo em 29 de setembro, e a Aos Fatos publicou a checagem em 3 de outubro, classificando o material como deepfake.
A principal pista foi a falta de sincronia entre a voz e o movimento da boca do apresentador, sinal de que o áudio foi inserido sobre as imagens. A busca reversa de imagens não encontrou registro anterior do vídeo. As postagens somavam ao menos 20 mil interações nas redes da Meta, e o material também circulou no WhatsApp, onde o alcance não pode ser medido.
O que diz a regra
O TSE decidiu em 1º de setembro quais critérios caracterizam uma deepfake: conteúdo sintético realista que altera imagem, voz ou manifestação de uma pessoa. Segundo o escritório Lantyer, a definição foi aprovada por 5 votos a 2, mas, no caso concreto analisado, a Corte rejeitou a multa por 4 votos a 3. O Terra lembra que a legislação eleitoral proíbe esse tipo de conteúdo quando caracterizado como propaganda capaz de enganar o eleitor, com possibilidade de cassação de mandato.
O que o eleitor pode fazer
Especialistas citados em outras reportagens recomendam alguns cuidados simples:
- Observe se os lábios acompanham a fala e se o olhar parece natural.
- Desconfie de pele lisa demais, sem marcas de expressão.
- Procure o mesmo conteúdo em veículos de imprensa ou em agências de checagem antes de compartilhar.
- Se o vídeo promete revelar algo gravíssimo e só circula em grupos e redes, é motivo para esperar a confirmação.
A matéria do Terra não traz dados de monitoramento do segundo turno, e as reportagens consultadas não detalham quais ferramentas as plataformas usam para remover o material. O que se sabe é que a maior parte do conteúdo irregular vem de perfis comuns e anônimos, o que dificulta a fiscalização.
Para o usuário comum, a consequência prática é a mesma de qualquer golpe com IA: um vídeo convincente já não é prova de que algo aconteceu. Confirmar a origem antes de repassar vale mais do que a pressa de ser o primeiro a compartilhar.
Fontes
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