Anthropic bloqueou clones de jogos no Claude Code com instrução secreta — sem changelog e sem jeito de desligar
Anthropic ativou no Claude Code uma trava invisível que bloqueia clones de jogos, sem anúncio. A descoberta saiu quando um usuário inspecionou o modelo.

A trava invisível no Claude Code
Em 27 de outubro de 2026, a Anthropic ativou no Claude Code uma instrução secreta chamada 'tengu_heron_brook' que bloqueia clones de jogos — sem changelog, sem aviso. Um usuário do X descobriu a trava ao notar o comportamento estranho do modelo, e confirmou depois vasculhando o binário. Na prática, o Claude Code agora se recusa a recriar um jogo já existente, mesmo que renomeado ou chamado de original.
O que a regra proíbe e o que ela deixa passar
Segundo a instrução, o Claude não deve "construir uma recriação de um jogo existente, mesmo que renomeado ou chamado de original". Na prática, segundo testes relatados pelo Game Developer e pela XDA Developers, a trava se aplica a clones completos de um título conhecido, mas deixa espaço para:
- jogos originais, mesmo que inspirados em um gênero;
- jogos construídos com assets e design próprios do usuário;
- engenharia reversa e recompilação estática de jogos para rodar em outra plataforma;
- camadas de compatibilidade e emuladores.
A restrição vale para o modelo Opus 5.5 dentro do Claude Code (detectada na versão v2.1.314) e, pelo que se sabe até agora, não existe um comando, flag ou configuração que o usuário possa acionar para desativá-la.
Addy Osmani confirmou, mas sem anúncio formal
Addy Osmani, da equipe técnica da Anthropic, confirmou a mudança quando questionado publicamente: "adicionamos duas frases ao prompt do Claude Code no Opus 5.5 para afastá-lo de recriar o jogo de outra pessoa, porque usar Claude para infringir propriedade intelectual vai contra nossa política de uso."
Não houve post de blog, nota de release ou aviso na documentação. A XDA Developers nem encontrou o texto da instrução no arquivo de configuração local das contas testadas, o que indica que a regra roda do lado do servidor, embutida no prompt de sistema entregue pela Anthropic, e não em algo que o usuário baixa ou pode editar.
Por que isso importa agora
Recriar jogos clássicos — de Tetris a RPGs de 16 bits — é um dos usos mais populares e mais compartilhados do "vibe coding" com agentes como o Claude Code. É exatamente esse comportamento recorrente que a Anthropic decidiu cortar pela raiz, antes que vire um problema jurídico maior.
O que dizem os estudos
Dois levantamentos ajudam a entender o pano de fundo da decisão:
- Extracting books from production language models (Ahmed, Cooper, Koyejo e Liang, preprint, 2026): em testes com prompts adversariais do tipo best-of-n, o Claude 3.7 Sonnet chegou a reproduzir cerca de 95,8% do livro "Harry Potter e a Pedra Filosofal" quase palavra por palavra quando submetido a técnicas de jailbreak; o Gemini 2.5 Pro extraiu 76,8% do mesmo texto sem precisar de jailbreak, e o GPT-4.1 ficou em apenas 4%. É um preprint, ainda sem revisão por pares, e mede memorização de texto em livros — não reprodução de código ou mecânicas de jogos —, mas mostra que modelos de ponta conseguem regurgitar conteúdo protegido quando provocados.
- AI Copyright Lawsuit Statistics 2026 (AI Industry Reviews, relatório de empresa, 2026): levantamento de dockets no CourtListener encontrou 127 ações por violação de direitos autorais contra empresas de IA em tribunais federais dos EUA desde novembro de 2022, sendo 55 somente entre janeiro e 8 de outubro de 2026 — mais do que as 39 de todo o ano de 2025. O relatório cobre só a esfera federal americana e não cita nenhum processo específico sobre clonagem de jogos por IA; ele mostra a curva de judicialização geral, não o caso da Anthropic.
Nenhum dos dois estudos prova que o Claude recriaria mecânicas ou assets de um jogo com a mesma fidelidade com que memoriza um livro. Mas dão contexto para o nervosismo da Anthropic: o volume de processos por direitos autorais contra empresas de IA mais do que dobrou de 2025 para 2026, e a própria Anthropic fechou em julho de 2026 o acordo do caso Bartz v. Anthropic, sobre uso de livros para treinar modelos.
O contra-argumento: é só uma linha de prompt
Especialistas ouvidos pela imprensa especializada apontam o limite da medida: "tengu_heron_brook" é uma instrução de prompt de sistema, não um bloqueio técnico no código do modelo. Historicamente, esse tipo de regra pode ser contornado com engenharia de prompt — pedindo o resultado em etapas, trocando a forma de descrever o alvo ou usando jailbreaks parecidos com os que extraíram livros inteiros no estudo de Ahmed et al. Isso sugere que a trava funciona mais como sinalização pública de política de uso do que como mitigação técnica robusta de risco jurídico.
O que acompanhar
Para quem usa Claude Code ou acompanha governança de agentes, vale ficar de olho em três coisas: se a Anthropic vai estender a mesma trava para outros tipos de conteúdo protegido (filmes, personagens, marcas), se outros fornecedores de agentes de código (GitHub Copilot, Cursor, Gemini CLI) vão adotar regras equivalentes, e se a própria restrição resiste a testes de jailbreak nas próximas semanas — o que vai dizer se "tengu_heron_brook" é sinalização de política ou proteção de fato.
Fontes
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