Anthropic chama professores de direito e até um oficial do Vaticano para debater quem controla os valores do Claude
Anthropic reuniu juristas, um juiz americano e um oficial do Vaticano para revisar os valores que guiam as respostas do Claude, revela reportagem da NBC News.

A Anthropic levou ao seu campus professores de direito, especialistas em democracia, um juiz da Califórnia e até um oficial do Vaticano para debater uma pergunta sem resposta fácil: quem deve ter a palavra final sobre os valores que guiam o Claude. A informação é de reportagem publicada pela NBC News em 18 de outubro de 2026.
O documento no centro da discussão é a chamada "constituição" do Claude, um texto de 84 páginas publicado pela Anthropic em janeiro que funciona como guia ético para o modelo. Segundo o Harvard Gazette, a constituição estabelece princípios sobre honestidade, segurança e comportamento apropriado que o sistema deve seguir ao responder usuários.
Quem revisou os valores do Claude
Mais de uma dezena de especialistas externos foram consultados sobre o conteúdo da constituição, de acordo com o Harvard Gazette. Entre eles está Jonathan Zittrain, professor de Direito Internacional em Harvard e diretor do Berkman Klein Center for Internet & Society, um dos principais centros de estudo sobre tecnologia e sociedade dos Estados Unidos. A lista inclui ainda um juiz da Califórnia e um oficial do Vaticano, segundo o mesmo relato.
A presença de um representante da Igreja Católica ao lado de magistrados e acadêmicos de direito mostra a amplitude da consulta: a Anthropic não limitou o debate a especialistas em tecnologia, mas buscou perspectivas de quem lida, no dia a dia, com questões morais, jurídicas e institucionais.
Uma constituição que não é bem uma constituição
Ao moderar um painel sobre o tema no Berkman Klein Center, Zittrain fez uma ressalva importante, segundo o Harvard Gazette: uma "constituição" de IA não equivale a uma constituição no sentido jurídico que ele próprio ensina em cursos de direito constitucional. Segundo Zittrain, a própria Anthropic é transparente sobre essa diferença e trata o documento como um conjunto de princípios de orientação, não como uma lei em sentido formal.
Outro participante citado pelo Harvard Gazette, o docente de Direito Jordi Weinstock, resumiu de forma direta o desafio de ensinar valores a um modelo de linguagem: "every LLM is born a psychopath, to me" ("para mim, todo LLM nasce psicopata"). A frase é uma referência ao fato de que os sistemas não trazem discernimento ético embutido antes do treinamento voltado a comportamento.
Por que isso importa para quem usa IA no Brasil
A pergunta que a NBC News coloca no título de sua reportagem resume a tensão central do episódio: a Anthropic quer opinião externa sobre os valores do Claude, mas quem tem a palavra final continua sendo a própria empresa. Isso importa para o público brasileiro porque é esse mesmo conjunto de regras — definido em um processo ainda concentrado na Anthropic — que determina o que o Claude pode ou não responder quando usado no país, de conversas cotidianas a aplicações profissionais em empresas e no setor público.
Decisões sobre moderação de conteúdo, limites de segurança e postura do modelo diante de temas sensíveis não nascem de um processo regulatório formal, nem de consulta pública, mas de um documento interno revisado por convite da própria companhia. A consulta a juristas, magistrados e representantes religiosos dá mais legitimidade a essas escolhas, mas não transfere a decisão final para fora da empresa.
O que esperar a seguir
Nem a NBC News nem o Harvard Gazette indicam, até a publicação das reportagens, um prazo para que a Anthropic divulgue uma nova versão da constituição incorporando as sugestões dos revisores externos. O episódio, no entanto, sinaliza uma tendência que deve se repetir em outras empresas de IA: à medida que modelos como o Claude ganham peso em decisões do cotidiano, cresce a pressão por algum tipo de supervisão externa sobre seus valores — mesmo que o controle final continue nas mãos de quem desenvolve a tecnologia.
Fontes
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